quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

* FAZER NOVELA EM PERNAMBUCO


Fazer novela não é fácil. Não é à toa que praticamente uma única emissora tem esse monopólio. O trabalho com audiovisual é árduo e caro. Fazer novela em Pernambuco, então, é muito mais árduo. Tarefa a que ninguém se aventurou nos últimos 36 anos. Até que, cansados de ver os talentos locais irem embora, qual retirantes, tentar a vida no Sudeste, um grupo de roteirista, produtores, técnicos e atores resolveu encarar o desafio.

E que desafio! De início, enfrentar as críticas, dúvidas e negativismo de todos os que chamavam o projeto de “loucura”. Depois, sinopse na mão, montar a equipe de base. Em seguida, achar parceiros que acreditassem no projeto e resolvessem aderir ao sonho. E, ao apresentar o projeto, a agradável surpresa: alguns dos melhores atores de Pernambuco abraçaram a causa de imediato, e choveram solicitações para participar da novela.

Durante três meses, os atores trabalharam os personagens, enquanto a equipe de base corria atrás de apoio. E finalmente surgiu um empresário de visão que tornou-se o grande parceiro desse sonho coletivo. Dessa forma, o projeto Aitaré da Praia tornou-se uma realidade numa co-produção da Cultmídia (Francisco Amorim & Mariú Gondim) e da Estação TV (João Florentino).

Ainda era pouco. A Cultmídia, responsável pela direção, produção e arte, e a Estação TV, pela câmera, equipamento técnico e edição, ainda precisavam de outros apoios. Havia todo o figurino, o cenário, transporte, alimentação, os cachês para serem pagos, enfim, a estrutura para ser montada. E a falta de recursos, que poderia ter sido um fator intransponível, tornou-se uma alavanca para a criatividade e a união da equipe. Para montar o figurino, por exemplo, peças de brechó e bazar de igrejas se juntaram às peças trazidas pelos próprios atores e cedidas por algumas lojas. Na impossibilidade de construir uma cidade cenográfica, estão sendo utilizadas locações reais, casas de pescadores, bares e a casa de praia de um empresário local. Os cenários, além dos móveis da Living Interiores exibe peças de artistas plásticos locais como Iara Tenório, Fernando Kehrle, Christianne Cysneiros e Tathianne Quesado, além de adereços e accessórios pessoais da própria equipe. Os pescadores de Barra de Jangada cedem seus barcos e apetrechos, gratuitamente, em solidariedade ao esforço que vêem toda a equipe realizar. Atores e técnicos investem em seu próprio futuro, esperando a finalização da obra para receber seus cachês.


Assim, “Aitaré” vai tomando forma, revelando paisagens e talentos, numa sucessão de imagens belíssimas. E a qualidade do trabalho realizado a cada dia renova as forças para mais um dia de gravação, mais um dia de construção de uma obra que resgata um marco do cinema, por ser livremente inspirado no filme homônimo de Ary Severo, de 1925, além de trazer a esperança de um futuro melhor para os artistas pernambucanos.

Desde Maio de 2004, quando foram iniciadas as gravações, são 63 atores e 35 técnicos que trabalham arduamente em prol de uma obra que vai beneficiar toda uma classe, que vai mudar o mercado de trabalho artístico e técnico de Pernambuco. Alguns desistiram no caminho, seja por falta de forças, seja por motivos pessoais. Mas o núcleo persiste. Porque todos entendem que estão construindo o futuro, fazendo história. A equipe conta com a Direção de Francisco Amorim, Direção de Arte de Mariú Gondim, Direção de Produção de Telma Mendes, Continuidade de Tathianne Quesado, Cenários de Christianne Cysneiros e Fernando Kehrle, Assistência de Direção de Pedro França e Iluminação de Sandro Moreira. No elenco, nomes como Artur Tigre, Hermylla Guedes, Henrique Pontual, Bobby Mergulhão, Eduardo Japiassu, Isa Fernandes, Cida Alencar, Ana Montarroyos, Ana Cláudia Wanguestel, Manoel Constantino, Renato Phaelante e muitos outros.


Pouco a pouco, mais e mais empresas foram aderindo ao projeto. E assim, o transporte é feito pela MWM Locadora, a alimentação conta com a Cia do Chopp, Laça Burguer, Come-come, Ilha da Kosta, Red’s Burguer, Anjo Solto e Clube da Panqueca, entre outros, A Prata do Vale e o Café Petinho garantem a reposição de forças no intervalo entre as cenas, a Artset gráfica digital colabora para as cópias de textos, a Dona Quitinha, junto com a Sal Marinho, veste a moda praia dos protagonistas, a Living Interiores cedeu os móveis para os cenários. E ainda, o Detran, a Prisma, a Ótica Loyon, o Hotel Pousada de Candeias, o Park Hotel, a Check-up Med... Cada uma dessas empresas contribui para que as gravações continuem, para que o sonho não acabe, para que as forçam não esmoreçam... Porque entendem que é preciso acreditar no talento e na cultura de Pernambuco, fazendo com que seus artistas possam viver da arte em sua própria terra. Porque entendem que entretenimento é um trabalho sério, feito por gente que luta, que vive e engole seus próprios problemas para levar alegria e diversão a todos. Porque sabem que televisão é ainda o melhor veículo para divulgar suas marcas, e que novela é o principal produto televisivo do país.

Fazer novela em Pernambuco, neste momento, é desbravar um mundo novo e desconhecido. É viajar de diligência, em meio a paisagens inóspitas e perigos insuspeitos. Mas é também sentir o prazer de construir um novo espaço para todos os que vivem da e para a arte. É sentir o prazer de ver novos talentos desabrocharem, tanto no elenco como na área técnica e outros se solidificando, se especializando. É saber que se está contribuindo para a formação de novos profissionais e o desenvolvimento dos que já atuam na área.

Fazer o projeto Aitaré da Praia se concretizar e chegar a público é abrir as portas para a profissionalização dos que fazem arte, para a divulgação das empresas e produtos locais, da beleza natural de nossas praias, de nosso jeito de ser e viver. É eternizar nossa cultura, mostrando que a arte é um produto que pode gerar renda e empregos sem perder sua função primordial de entretenimento e beleza.

*Mariú Gondim
Produtora Executiva e Diretora de Arte
*Set. 2004

Nenhum comentário: