Ele era um menino inquieto, que gostava de sonhar. Sonhava dormindo, como todo mundo. Mas entrava tanto no sonho que somente um fiozinho de prata o mantinha preso ao corpo e o impedia de ir embora no sonho. Mas também sonhava acordado. E com tanta força que o que ele sonhava virava verdade. Não uma verdade de ver com os olhos e pegar. Porque o que ele sonhava não era feito de coisa de gente. O que ele sonhava era feito de coisa de sonho. E coisa de sonho não se pega nem se cheira. Somente se sente e se vê no coração.
Todo mundo dizia que ele não era muito certo da cabeça. Que ele vivia no mundo da lua. E chamavam ele assim, mesmo: “Da Lua”. Acho que ele nem era desse planeta. Ele caiu de um planeta colorido, por descuido, num raio de sol. Porque quando ele sonhava, o sol jorrava de seu sorriso e seus olhos ficavam cheios de poeira de estrelas.
Um dia, no meio de um sonho, ele encontrou uma princesa disfarçada de gente normal. Mas ele viu que os olhos dela também tinham poeira de estrelas e ela viu os raios de sol no sorriso dele. Aí, os sonhos ficaram ainda mais coloridos, porque eles sonhavam juntos. E falavam de nuvens e arco-iris, e viajavam de carona no vento, e desenhavam no ar os castelos dos sonhos. E enchiam os castelos de fadas, duendes, unicórnios, princesas, cavaleiros e bruxas. Porque todo sonho tem que ter uma bruxa ou um dragão pro cavaleiro poder salvar a princesa. E eles riam dos sonhos que construíam!!! Enchiam os ares da música dos seus risos e das canções que cantavam.
As pessoas entendiam ainda menos. Achavam que agora eram dois que vinham de outro planeta. Que um era a perdição do outro. Porque gente normal faz coisas de vidro e lata. E não coisas de matéria de sonhos. Nem percebiam que eram essas coisas de sonhos que permitiam que elas continuassem respirando. Porque elas não sabiam que sonhos existem como árvores, para limpar o ar e deixar a vida viver. Nem sabiam que os sonhos soltam tinta e são eles que deixam o mundo colorido. Nem notavam que nos lugares onde não existem sonhos, tudo é em preto e branco. Tadinhas... Elas pensavam que as coisas em preto e branco eram assim de propósito, porque eram coisas sérias, antigas e sólidas. Como fotos de outro século, que vão ficando amareladas com o tempo. Como as pirâmides do Egito que são da cor da areia. Que nada... As coisas em preto e branco são somente tristes porque não sabem sonhar...
E eles continuam sonhando, apesar das pessoas. De vez em quando, esqueciam de prestar a atenção e os sonhos iam embora. Aí, tudo ficava cinza e eles começavam a sufocar. Mas logo lembravam do som dos risos um do outro e corriam pra nuvem onde guardavam seus sonhos. Tiravam um deles da gaveta e logo o mundinho deles ia ficando colorido outra vez. Com tanta cor e tanta luz, que outros seres “Da Lua” iam chegando perto, e sentando na nuvem pra brincar de sonhar junto com eles. Por que o povo da lua é assim, como as abelhas: eles sentem o cheiro de sonho e vêem a poeira de estrelas no olhos uns dos outros. E acabam se juntando em bandos que empurram o cinza prum canto e mudam a forma das coisas. Cada um pega um pincel e enche o mundo de amarelo-alegria, vermelho-paixão, azul-amizade, verde-ternura, rosa-criança, laranja-canção, lilás-sentimento... É bonito de ver! Tá certo que assusta as pessoas cinza, que só sabem fazer coisas de vidro e lata. Mas até que elas gostam do brilho que eles trazem... só não achavam que eram coisas sérias. Achavam que nenhum deles era muito certo da cabeça...
E o menino da Lua continuava sonhando... E sonhou tanto, mas tanto, tanto... que adormeceu de mal jeito numa nuvem e caiu na terra cinza. Ficou coberto de poeira que não deixava o brilho do sol jorrar de seu sorriso nem a poeira de estrelas cintilar em seus olhos. A princesa gritou desesperada pra ele voltar pra nuvem. Mas na queda ele bateu a cabeça e esqueceu o que sonhava. Misturou tudo do sonho. E em vez de castelos com fadas e duendes, só sabia construir grutas de dragões e gigantes e ogros. Ele achava que ainda era o mesmo sonho que sonhava antes. Porque a terra que cobria seus olhos não deixava a poeira de estrelas iluminar o seu sonho. E as fadas, duendes e cavaleiros só podem viver com olhos que têm a luz de estrelas e sorrisos de raios de sol.
Ele esqueceu da princesa e seguiu o seu sonho com os dragões e os ogros. Mas dragões e ogros não sabem sonhar. Não sabem cantar com as notas da alegria, nem sabem pintar com as cores do afeto. Não sabem construir com a armagassa do amor e da ternura, porque não conhecem a matéria dos sonhos... Eles fingem, mas os sonhos que eles sonham não resistem ao sol e derretem como sorvete de groselha...
A princesa ficou sozinha na nuvem, vendo o menino dos sonhos descer para a gruta do dragão, iludido pelo brilho de um caco de vidro. Ele ainda chamou todo o bando de gente da lua. E eles ainda chegaram até a entrada da gruta. Mas como eles não tinham batido a cabeça, eles sabiam que ali não tinha poeira de estrelas. E voaram de volta pras nuvens, atraídos pelo cheiro de outros sonhos...
A princesa ficou chorando na nuvem, catando as sobras dos sonhos que eles tinham criado juntos. Tentou fazer uma colcha de retalhos pra se aquecer do frio. Mas faltava a linha da alegria pra unir os pedacinhos. Ela tentou colar com a cola das pessoas. Mas a cola das pessoas só sabe juntar coisas de lata e de vidro: matéria de sonhos só gruda com sorrisos de sol e poeira de estrelas... E a princesa pegou da gaveta seu disfarce de gente normal que sabe fazer coisas de lata e de vidro. As pessoas sorriram aliviadas, achando que agora ela tinha tomado jeito e aprendido a fazer coisas sérias, sólidas e importantes. Nem viam que em seus olhos não cintilavam mais as poeiras de estrelas e que seu sorriso agora era de plástico. Nem viam que o menino dos sonhos tinha levado a caixa de cores e ela agora só era em preto e branco. E que o mundo agora era só em tons de cinza...
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