sábado, 12 de novembro de 2005

* MERGULHO

Mergulho em mim mesma a cada dia
E busco lá no fundo a minha pérola
Mas cada ostra que encontro, está vazia.
Subo à tona e respiro um pouco mais
E volto ao meu mergulho, incessante
Por que sei que lá no fundo, cintilante
O meu tesouro permanece, intocado.

Passeio entre navios naufragados
E entre restos de lembranças, eu vasculho.
Memórias de infância, de outras vidas,
De um tempo em que, sem medo,
Eu brilhava.
E ria, e brincava, e planejava
E acreditava que a vida me esperava
Pra me dar contas das pérolas que guardava.

Doce ilusão!
A vida não espera, passa.
A nós é dado procurar a pérola
E dela fazer jóia, ou manter guardada.

* Abr. 2002




quinta-feira, 10 de novembro de 2005

* EXPLOSÃO


Uma mulher explode dentro de mim!
E eu sinto sua presença
Em cada fibra do meu corpo
— Que é o dela.
Choro baixinho com sua tristeza mansa
Maravilho-me com suas descobertas
E soluço de prazer junto com ela.

É através dela que descubro os mundos:
O mundo intenso que se esconde
Atrás deste, banal, que é o que vemos,
E o mundo infinito que existe
Por trás de todos os olhos,
Por baixo de todas as peles.

Ela afia em meu corpo suas garras
— de felina —
E os fios de sangue
Que escorrem em minha pele
Fazem brotar em mim
Flores mágicas de emoção.

Essa mulher-criança
Me dá a mão e pula pra dentro de mim.
E acende as luzes
De todos os meus recantos.
E brinca de fada, de bicho do mato,
De princesa e dragão cor-de-rosa.
E mistura emoções em doce alquimia.

Essa mulher-felina
Vira seus olhos pra dentro de mim
E atiça meus instintos de bicho;
Dá lustro ao pelo de pantera,
E maciez ao meu pulo/andar de gata.
Aguça meu faro,
Meus sentidos todos!

Se apossa de mim
E deixa, enfim, explodir meu gozo
— que é o seu próprio!

*Mar 1988

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

* FASCINAÇÃO

 
 

Esse homem moreno, mistura de índio e de mouro, me fascina! Tento decifrar cada gesto, cada expressão, cada músculo.


Em vão. Ele parece esconder segredos que estarão sempre além do meu alcance. E no entanto, existe nele uma pureza, uma transparência, que me extasia! É como um diamante. Bruto, sem ter sofrido as técnicas da lapidação. Puríssimo, sem ter se contaminado com as sujeiras dos cascalhos. Irradiando a luz que o atravessa, sem manchas. É isso, ele é.. o meu diamante negro.

Olho para ele e viajo... imaginando os mistérios milenares que se escondem por trás do seu sorriso franco e dos seus olhos de índio. Desconfiado. Místico como um indiano. Sensual como um Sheik do deserto. O meu Sheik. Posso vê-lo em um cavalo árabe, a cavalgar sobre as dunas, o turbante branco ressaltando a cor de cobre do seu rosto, os músculos retesados para conter a força do animal... E posso vê-lo enlouquecer de prazer na sensualidade dos ritmos e das odaliscas do Oriente. Felino... Meu homem. Que me leva à loucura no ritmo do seu corpo moreno. Que me descobre sob as mil capas que me envolvem como uma cebola. Revela meus segredos. Liberta minhas feras. Nós dois. Pantera e Leopardo. Sutis. Ferozes. Sensuais.

Meu homem. Meu Sheik. Meu menino... É uma doçura tão grande que emana de todo o seu ser, que me pergunto até onde é possível chegar quando se mergulha tão profundamente em um sentimento, na vida. É um riso e uma esperança de criança que me arrebata! Me faz soltar as velas e deixar correr o barco ao sabor do vento. Não, não existe nada de irresponsável neste soltar-se. Há apenas uma confiança mútua no porto que o outro representa. No calor dos braços dele, a fortaleza do seu peito, no destemor de sua proteção. Meu herói.

Meu refúgio. Um refúgio que às vezes também se fecha — para “balanço”, talvez? E me atordoa. Como guerreiro da Idade Média, levanta as pontes do seu castelo e o fosso fica intransponível. Impossível vencer seus dragões, derrubar suas barreiras e fazer contato. Ele está só. E a desolação consome todo o campo ao seu redor, como na lenda do Rei Arthur. Ele é o meu Sir Lancelot, o guerreiro solitário da armadura brilhante, na eterna busca do Santo Graal. Meu deus grego, inatingível. A Esfinge de Édipo. O oráculo de Delfos, com as mais profundas análises do comportamento humano. Inclusive do meu próprio.

Isso me confunde e me fascina. Jamais me vi tão nua frente a outro ser humano. Jamais me senti tão completa. E nem tão fragmentada. Tão protegida e tão cheia de medos. Jamais senti tanta sede de conhecimento e compreensão. Jamais alguém se me mostrou a um tempo tão simples e tão complexo. Tão forte e tão vulnerável. Nem me transmitiu tanta paz, um sentimento tão forte de plenitude!

Olho para esse rosto moreno de menino e vejo um sábio de milhares de anos! Numa fração de segundo sinto que o possuo inteiro — e que ele me escapa por completo. Embriago-me com sua doçura e firo-me em sua áspera frieza. Sinto-me protegida pela sua força e coragem, e tremo de insegurança pela sua firmeza (e se ele “decidir” me deixar, vai manter a decisão por mais que sofra — por mais que eu sofra). Ardo de desejo pela sua sensualidade viril. Felino. Meu Leopardo. Divirto-me junto com a criança imortal que reina em seu coração. Emociono-me com a sua sensibilidade. Apaixono-me...

Esse é o meu homem. O último dos moicanos. Exemplar raro de uma raça em extinção: ser humano. Meu diamante mouro. Caleidoscópio que me fascina. Meu Mago, que me envolve em ondas de amor, carinho, compreensão e prazer. Que extrai de mim o que de melhor tenho: toda a emoção, toda a luz que sou capaz de irradiar!

.Jun.1990

terça-feira, 8 de novembro de 2005

* GAIVOTA VADIA





Estrela da manhã
Gaivota vadia
Espaço
Infinito espaço
Azul-branco fosco
Brilho sem luz
Desconexo
Descompasso
Desamparo
Desafeto.

*Out.1987_França

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

O FUTURO DA HUMANIDADE

Rating:★★★★★
Category:Books
Genre: Literature & Fiction
Author:Augusto Cury
Esse é uma dos melhores livro que li recentemente. Faz a gente repensar a doença mental. Fala de um estudante de medicina que quer saber q história dos cadáveres da aula de anatomia. E vai procurar saber a quem perteceram aqueles corpos. Por conta disso, conhece um mendigo que o leva a repensar sua vida e a alma humana. Acaba se tornando um psiquiatra inovador que mexe com a visão do tratamento da doença mental.

É um livro envolvente que leva a gente a repensar nos valores que realmente importam na vida...
Recomendo pra todo mundo que sabe o que significa a palavra "sensibilidade".

* NOSSOS CORPOS

 

Teu corpo,
Desejo explícito,
Fogo líquido
Derramado
Sobre o meu.

Teu toque
- Passaporte -
Que liberta meus anseios
Respondendo aos teus apelos
Traduzidos em minhas mãos.

Tua língua,
Doce carícia,
Que acende
- E transcende -
O brilho do prazer
Que explode
Em cada célula
Do meu corpo.

Bocas,
Pernas,
Braços,
Mãos...
São detalhes
Que se fundem
E se confundem
Nesse amor
Que nos chega
Em ondas,
Sem aviso,
Sem juízo,
Sem pudor...
*Ago. 1989 

sábado, 5 de novembro de 2005

* PROLE

Filhote
De onça, de bicho,
De gente.
Semente
Que se lança na gente,
E germina,
E sente
A ternura,
O calor,
A textura,
O sentir da gente.
Amor,
Desamor,
Pouco importa...
É meu filhote:
Sou onça, leoa,
Tigresa,
Em defesa
Da vida
Que pulsa em meu ventre!

*1993

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

Tudo Indo. . .

 

Para Mariú Gondim



Tudo indo...
Contra o vento, de encontro a sentimentos
E passa por mim como que fosse deixar saudade
E passa por mim como que eu fosse pensar que era verdade
Um acontecimento que não foi, um sonho que não sobreviveu à noite
Um pensamento que me inebriou, me enganou
Abrir os olhos por vezes é um açoite
É trincar os lábios, prender o ar nos pulmões
Não tenho dois corações
Ao meu lado a cama está vazia, sobra um travesseiro
Sobra um mundo inteiro
Num breve momento sorri, lembrei-me de ti
Mas não pude abrir os braços, tua ausência é o meu cansaço
Um lapso
Não capto o momento em que te perdi
Um pacto rompeu-se no meu existir
Não dou a última carta, não acredito no fim
Há no meu peito, incessante, um coração
Fome nas mãos, nos pés um desejo pela imensidão
Que tudo vá!
Se tudo vai indo, eu vou...
Não quero olhar pra trás, já me bastam as lembranças
Não me dêem as mãos, não pensem que sou criança
Já sofri
Prefiro beirar os trilhos, me arriscar em precipícios
E prosseguir...deixando cair meu vícios, pesar meus cílios
E num ponto qualquer do caminho
Me ausentar de ti.

 De
Eduardo Japiassú
11/04/2001

* O MENINO DOS SONHOS

Ele era um menino inquieto, que gostava de sonhar.  Sonhava dormindo, como todo mundo. Mas entrava tanto no sonho que somente um fiozinho de prata o mantinha preso ao corpo e o impedia de ir embora no sonho. Mas também sonhava acordado. E com tanta força que o que ele sonhava virava verdade. Não uma verdade de ver com os olhos e pegar. Porque o que ele sonhava não era feito de coisa de gente. O que ele sonhava era feito de coisa de sonho. E coisa de sonho não se pega nem se cheira. Somente se sente e se vê no coração.

Todo mundo dizia que ele não era muito certo da cabeça. Que ele vivia no mundo da lua. E chamavam ele assim, mesmo: “Da Lua”. Acho que ele nem era desse planeta. Ele caiu de um planeta colorido, por descuido, num raio de sol. Porque quando ele sonhava, o sol jorrava de seu sorriso e seus olhos ficavam cheios de poeira de estrelas.

Um dia, no meio de um sonho, ele encontrou uma princesa disfarçada de gente normal. Mas ele viu que os olhos dela também tinham poeira de estrelas e ela viu os raios de sol no sorriso dele. Aí, os sonhos ficaram ainda mais coloridos, porque eles sonhavam juntos. E falavam de nuvens e arco-iris, e viajavam de carona no vento, e desenhavam no ar os castelos dos sonhos. E enchiam os castelos de fadas, duendes, unicórnios, princesas, cavaleiros e bruxas. Porque todo sonho tem que ter uma bruxa ou um dragão pro cavaleiro poder salvar a princesa. E eles riam dos sonhos que construíam!!! Enchiam os ares da música dos seus risos e das canções que cantavam.

As pessoas entendiam ainda menos. Achavam que agora eram dois que vinham de outro planeta. Que um era a perdição do outro. Porque gente normal faz coisas de vidro e lata. E não coisas de matéria de sonhos. Nem percebiam que eram essas coisas de sonhos que permitiam que elas continuassem respirando. Porque elas não sabiam que sonhos existem como árvores, para limpar o ar e deixar a vida viver. Nem sabiam que os sonhos soltam tinta e são eles que deixam o mundo colorido. Nem notavam que nos lugares onde não existem sonhos, tudo é em preto e branco. Tadinhas... Elas pensavam que as coisas em preto e branco eram assim de propósito, porque eram coisas sérias, antigas e sólidas. Como fotos de outro século, que vão ficando amareladas com o tempo. Como as pirâmides do Egito que são da cor da areia.  Que nada... As coisas em preto e branco são somente tristes porque não sabem sonhar...

E eles continuam sonhando, apesar das pessoas. De vez em quando, esqueciam de prestar a atenção e os sonhos iam embora. Aí, tudo ficava cinza e eles começavam a sufocar. Mas logo lembravam do som dos risos um do outro e corriam pra nuvem onde guardavam seus sonhos. Tiravam um deles da gaveta e logo o mundinho deles ia ficando colorido outra vez. Com tanta cor e tanta luz, que outros seres “Da Lua” iam chegando perto, e sentando na nuvem pra brincar de sonhar junto com eles. Por que o povo da lua é assim, como as abelhas: eles sentem o cheiro de sonho e vêem a poeira de estrelas no olhos uns dos outros. E acabam se juntando em bandos que empurram o cinza prum canto e mudam a forma das coisas. Cada um pega um pincel e enche o mundo de amarelo-alegria, vermelho-paixão, azul-amizade, verde-ternura, rosa-criança, laranja-canção, lilás-sentimento... É bonito de ver! Tá certo que assusta as pessoas cinza, que só sabem fazer coisas de vidro e lata. Mas até que elas gostam do brilho que eles trazem... só não achavam que eram coisas sérias. Achavam que nenhum deles era muito certo da cabeça...

E o menino da Lua continuava sonhando... E sonhou tanto, mas tanto, tanto... que adormeceu de mal jeito numa nuvem e caiu na terra cinza. Ficou coberto de poeira que não deixava o brilho do sol jorrar de seu sorriso nem a poeira de estrelas cintilar em seus olhos.  A princesa gritou desesperada pra ele voltar pra nuvem. Mas na queda ele bateu a cabeça e esqueceu o que sonhava. Misturou tudo do sonho. E em vez de castelos com fadas e duendes, só sabia construir grutas de dragões e gigantes e ogros. Ele achava que ainda era o mesmo sonho que sonhava antes. Porque a terra que cobria seus olhos não deixava a poeira de estrelas iluminar o seu sonho. E as fadas, duendes e cavaleiros só podem viver com olhos que têm a luz de estrelas e sorrisos de raios de sol.
Ele esqueceu da princesa e seguiu o seu sonho com os dragões e os ogros. Mas dragões e ogros não sabem sonhar. Não sabem cantar com as notas da alegria, nem sabem pintar com as cores do afeto. Não sabem construir com a armagassa do amor e da ternura, porque não conhecem a matéria dos sonhos... Eles fingem, mas os sonhos que eles sonham não resistem ao sol e derretem como sorvete de groselha...

A princesa ficou sozinha na nuvem, vendo o menino dos sonhos descer para a gruta do dragão, iludido pelo brilho de um caco de vidro. Ele ainda chamou todo o bando de gente da lua. E eles ainda chegaram até a entrada da gruta. Mas como eles não tinham batido a cabeça, eles sabiam que ali não tinha poeira de estrelas. E voaram de volta pras nuvens, atraídos pelo cheiro de outros sonhos...

A princesa ficou chorando na nuvem, catando as sobras dos sonhos que eles  tinham criado juntos. Tentou fazer uma colcha de retalhos pra se aquecer do frio. Mas faltava a linha da alegria pra unir os pedacinhos. Ela tentou colar com a cola das pessoas. Mas a cola das pessoas só sabe juntar coisas de lata e de vidro: matéria de sonhos só gruda com sorrisos de sol e poeira de estrelas... E a princesa pegou da gaveta seu disfarce de gente normal que sabe fazer coisas de lata e de vidro. As pessoas sorriram aliviadas, achando que agora ela tinha tomado jeito e aprendido a fazer coisas sérias, sólidas e importantes. Nem viam que em seus olhos não cintilavam mais as poeiras de estrelas e que seu sorriso agora era de plástico. Nem viam que o menino dos sonhos tinha levado a caixa de cores e ela agora só era em preto e branco. E que o mundo agora era só em tons de cinza...

*Out.2005


* LOUCO AMOR


Em mim quero um amor
Assim, tão louco,
Que não importa quanto passe o tempo
Cada dia seja sempre
O romper da aurora
De um dia de chegada!

E cada beijo
Reproduza o brilho
Dos raios que se filtram
Pelas frestas das janelas
Onde o amor se reinventa...

*1990