sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

* DOÇURA

Melancolia.
Quase tédio.

Uma tristeza que vem vindo devagarinho e se apossando de todo o espaço livre. Não é uma tristeza doída: é quase uma doçura, quase um carinho. É uma tristeza gostosa, quase... amiga. É uma tristeza de saudade.
        
É a falta que faz um carinho que é da gente e que a gente sabe que está à espera, sentindo a mesma falta. É a quase presença de alguém.
        
Não, não é amargura, apesar de ser a tristeza que há num coração sozinho, vazio. É a tristeza-esperança do sonho, da vida. Da certeza que a solidão vai acabar um dia: que o amor está escondido em uma curva da estrada ou em uma dobra da roupa.
        
Sinto a doçura dessa tristeza que vem num sussurro, nuns olhos molhados. Sinto o aconchego que poderia ter se...
“Se”, o quê? “Se”, nada. Apenas “Se”. O aconchego que tenho direito a ter; que já tive e que terei um dia.
        
Sinto a presença dos seres amados, amigos, distantes. E tão próximos. E tão dentro de mim. Sinto a energia que emana desse sentir, que me fortalece e me gratifica. E me vivifica.
        
         Sou uma mulher.
         Sozinha.
         Bonita.
         Forte. Frágil.
         Cheia de amor e vida.
         E a doçura desse momento me basta, por ora.

.Fev.1987

* PERMANÊNCIA

- Anaïs & St. Laurent
Acordar.
E sentir ainda em meu corpo
O teu perfume,
Que nada tem de especial
Senão o fato de ser teu.
O teu cheiro...
A tua presença que persiste;
Mesmo ausente,
                           permaneces...
Amanhecer.
À luz difusa dessa incerteza
Entre a noite que vai
E o dia que se instala,
Tua presença;
Em cada objeto da sala em desordem,
Em cada parte de mim,
Em cada som,
Nos resquícios do teu cheiro
Que se mistura ao meu,
Permaneces.
Tudo parece falar de ti.
E essa permanência
Em mim,
Nas coisas,
No ar,
Só faz ressaltar que faltas.
Que me faltas.
Essa não-presença tua
Que persiste...
.1983

* AMOR PRÓPRIO

A gente aprende que a maturidade chega junto com a sabedoria e a idade. Que vã idéia! A cada dia me descubro mais e mais incompleta. E cheia de ansiedade e lacunas a preencher numa vida que jamais consegui sentir realmente plena. Revisões de comportamento, de posturas e valores. Desejos, muitas vezes inconfessáveis e inconfessados até pra mim mesma.

E, no entanto, estou calma. Em ebulição por dentro, mas tranqüila na superfície. Sinto brotar em mim uma magnitude diferente. Parece que, enfim, a mulher que posso ser está prestes a surgir, a florescer. Unidade. Plenitude. Integridade. Não no sentido comum desta palavra: não no sentido moral, de honestidade e confiança. Mas integridade no sentido de integração, de coesão das múltiplas facetas de que sou feita. Inteireza, talvez seja mais exato.

Estou em profundo contato com meu EU interior. Não mais daquela forma infantil e fantasiosa que marcou minha adolescência e juventude. São frases que me soam familiares, que tantas vezes usei em meus escritos, mas cujo significado me aparecem de modo tão diverso, apesar de tão iguais.

Não, não enlouqueci. Nem regredi. Talvez agora eu tenha realmente avançado nesse conhecimento da minha matéria mais íntima e verdadeira. Talvez só agora eu vislumbre o que procurei a vida inteira. Talvez só agora eu me esteja realmente enamorando de mim mesma e descobrindo o amor primordial, que é o amor próprio.

Por toda a vida, procurei num outro ser o amor que me faltava. E esbarrei sempre na pouca confiança que tinha de ser merecedora de amor tão grande quanto o que sei ser capaz de dar. Sempre dei muito, por achar que tinha pouco de mim mesma a dar. E, de certa forma, me senti traída e reconfortada ao mesmo tempo por não me ver amada de forma tão intensa. Traída, por ser injusto. Reconfortada, por que já o esperava. Reconfortada, por me fortalecer e continuar a busca, apesar das quedas.

Hoje, quero primeiro encontrar em mim mesma esse amor. Não mudei do dia pra noite. Não perdi a ânsia de agradar, de conquistar, de ser querida. Mas entendi os mecanismos que usei pra sabotar essas conquistas e resolvi trabalhar neles, eliminar de vez as armaduras com que me revesti a vida inteira. Armaduras que julguei haver jogado fora há muitos anos. Mas que, vejo agora, apenas troquei por materiais mais suaves e quase imperceptíveis a olho nu.

Hoje, estou pronta. E disposta a uma mudança efetiva de atitudes.
“Que venha essa nova mulher de dentro de mim”, como diz a música.

Não encontrei a resposta aos meus problemas... Mas descobri quem posso e quem quero ser. E, melhor, como posso chegar a ser essa mulher maravilhosa que prendi dentro de mim por um tempo tão longo de exílio... Não vou entrar na armadilha da autopiedade e lamentar os anos mal vividos, as emoções truncadas, os amigos perdidos. Vou apenas usar os erros cometidos como alavanca para acelerar todo o processo e viver plenamente cada dia de vida que Deus me der. Cada minuto dessa dádiva maravilhosa que se chama vida.

.Mar.2001 

* O ANJO DE LUZ

Era uma cidade fria e cinzenta. E Luisa sentia um aperto no coração cada vez que tentava fazer algum contato com as pessoas. Na aparência, era tão fria quanto elas, que viviam apenas preocupadas com a necessidade de se agasalhar e aquecer. Sentia que havia algo esquisito com o lugar, uma espécie de encantamento, de maldição. Não sabia bem como chegara ali, já se passara tanto tempo...

Tudo era tão automatizado, que um dia parecia fundir-se no outro. Às vezes, ela não sabia se era invisível, ou se era um dos muitos andróides que existiam por ali. Os humanos, de tanto lidar com máquinas, muitas vezes não sabiam mais diferencia-las de seus iguais. E tornava-se impossível estabelecer um contato real com as pessoas, que há muito haviam desaprendido a sentir.

Luísa sentia-se terrivelmente só. Observava a paisagem e imaginava que um dia aquele lugar havia sido belo. Tentava descobrir o que mudara, como as coisas haviam se tornado tão frias e secas. Parecia haver uma capa, uma névoa cobrindo tudo e todos.

Forasteiros chegavam, às vezes, à cidade. Então, ouvia-se o som de risos e música. E Luísa achava que as coisas iam mudar. Mas eles ficavam apenas o tempo de conhecer o lugar, pegar alguns souvenirs e iam embora.

Um dia, notou algo diferente. Um homem, num banco da praça parecia observar todos os seus movimentos. Ela, de início, não lhe deu atenção, tão acostumada estava com as pessoas vazias do lugar. Mas ele a olhava, com um olhar atento e interessado. Ela o olhou, e ele sorriu. Um sorriso de raios de sol, que iluminou o dia cinzento. Ela parou, sem saber o que fazer, inebriada com a luz daquele sorriso. Ele caminhou até ela e, sem dizer nada, pegou uma das mochilas pesadas que ela levava. Demonstrava tanta segurança, que ela apenas o seguiu. E ele dirigiu-se à sua casa, como se soubesse exatamente quem ela era e o que viera fazer ali. Abriu a porta, deixou a mochila e, sem dizer palavra, apenas sorriu e foi embora. Ela ficou por um longo tempo parada, olhando-o da janela, meio sem saber se sonhara ou se fora real. Ele, certamente, não pertencia ao lugar.

Encontrou-o alguns dias depois e conversaram. Sua voz parecia música e seus olhos tinham brilho de estrelas. Ele parecia saber tanto da vida, dizia coisas que pareciam tocar seu coração em uma suave carícia. E, nesse dia, ela dormiu tranqüila como há muito não conseguia.       Vê-lo tornou-se uma agradável rotina. Eles andavam pelos campos, conversavam, riam. E ela a cada dia aprendia mais, descobrindo coisas que jamais pudera supor que existissem. As pessoas os olhavam com estranheza, com reservas, temendo a alegria que eles pareciam trazer para ameaçar a estrutura do lugar. Mas Luísa não se importava mais. Estava leve, feliz, livre como nunca havia sido. Seus dias não eram mais frios e cinzentos, pois ele os iluminava e aquecia com a luz de seu sorriso e o calor de sua voz.
  
Ele a levava a lugares que ela nem imaginara existir naquela cidade. Descobriu recantos, pássaros, animais, flores que nunca vira antes. Ele a levou a um lugar secreto: escondido entre as montanhas, havia um vale. Cheio de flores, riachos e pradarias. Uma estradinha singela levava até lá.

Ela parou no alto da colina e ficou olhando, extasiada. Era tudo tão diferente do lugar frio e cinzento de onde vinha!... Desceu lentamente, aproveitando a beleza da paisagem, a brisa suave, o sol aconchegante que lhe aquecia os ossos e o coração. Ela achou que ali era o paraíso!! Ele apenas riu, e disse que o vale sempre estivera ali, ela que nunca o procurara.

Banharam-se no riacho e depois deitaram-se na relva para descansar. Ela sentia-se a mais feliz das criaturas!! Fechou os olhos por um instante, inebriada de felicidade. Sentiu, de repente, um arrepio. E abriu os olhos, assustada. Estava só. Olhou em volta à procura do homem que mudara sua vida, mas não o encontrou em lugar nenhum. Achou que ela havia voltado à cidade e não quisera acorda-la.

Estranhou essa atitude, tão diferente de tudo o que ele fizera até então, mas apenas recolheu suas coisas e voltou para casa. No caminho, percebeu que o dia estava nublado. Uma leve chuva começava a cair sobre a cidade. Achou que esse era o motivo do arrepio que sentira. Apressou o passo para se aquecer, mas sem se preocupar muito, pois tinha sua própria fonte de aquecimento. Sabia que bastaria encontra-lo para o sol voltar a brilhar. Não sabia explicar como ele fazia isso. Nem sabia direito quem ele era, ou de onde vinha. Ele sempre falava com reticências...

Os dias passaram, mas não a chuva. Ela ficou presa em casa, sempre à espera que ele aparecesse, de repente, como fizera desde aquele primeiro dia. Mas nada aconteceu. Quando pode, enfim, sair, ela o procurou em todos os lugares onde costumavam ir. Em vão: ele não estava em lugar nenhum. Tudo estava vazio e a névoa parecia cobrir de forma ainda mais intensa a cidade fria e cinzenta. As ruas pareciam ainda mais cheias de andróides e pessoas vazias.

Luísa foi ficando a cada dia mais triste. Onde estaria o seu amigo misterioso? Procurou a caixa onde guardava os presentes que ele lhe dava: alegria, carinho, afeto, abraços, sorrisos, suaves melodias e ternura. Tudo havia desaparecido, como por encanto. Apenas cinzas enchiam a caixa. E algumas pétalas das rosas que ele lhe dera. Era o único indício que ali tinham estado guardados todos os seus tesouros...

Então, ela entendeu que ele se fora para sempre. E chorou um pranto de muita dor. Aos poucos, entendeu quem era esse homem misterioso: ele era um Anjo. O Anjo da Luz, enviado para aquecer os corações. Ele veio como um sonho, para lhe dar algum conforto e ensinar tanta coisa que desconhecia. Para lhe falar de vales, riachos, flores e brisa, de lua e estrelas, para trazer luz e calor aos seus dias vazios. Mas terminara sua missão. E ele seguira para aquecer outros corações, iluminar outras vidas.

A ela, Luísa, restaria apenas a lembrança do que tivera. A dúvida se fora apenas um sonho, ou uma doce realidade. A dor de uma partida repentina e sem despedidas. E o vazio dos dias que estavam por vir.

.Abr.2001

* A ARTE SOLITÁRIA

Escrever é uma arte solitária.

E Clarice diz que “Viver ultrapassa qualquer entendimento”. Escrever é o transbordamento dessa vida não entendida, do sentimento maior que o peito, da energia maior que o ser.

Escrever é doar-se, mostrar-se; É gritar de dor, de prazer, é dar e pedir socorro. Escrever é sempre se dar colo, mesmo que para quem lê, seja o abraço aconchegante e necessário. Impossível escrever para “os outros”: Escrever é sempre uma viagem interior e solitária. É buscar no fundo de si o que se tem de melhor e mais profundo, os fantasmas que assustam, os medos inconfessáveis... Se isso é útil para alguém, é conseqüência, jamais objetivo.

Poesia não está nos versos e sim na emoção que escorre por entre as letras. Poesia é sentimento que se concretiza em palavras e toca apenas as almas que vibram em freqüências afins.  Se a isso se juntar a melodia, pode ser um cântico de anjos ou um toque de guerra, mas atinge as fibras mais profundas de um ser.

Diz-me o que ouves, e eu te direi quem és...

Tudo isso é solitário. É auto-conhecimento, intimidade. É ato de dor ou prazer. É catarse consciente ou inconsciente. E o outro pode partilhar do conteúdo e da forma, jamais do significado. Pode reconhecer-se. Pode captar o jeito de ser de quem escreve, mas a essência que transborda para o papel permanece intocada até acontecer o milagre de uma alma gêmea ser encontrada.

Então, toda escrita torna-se supérflua. Pois que se fala de um coração a outro.

.Abri.2002