quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

* FAZER NOVELA EM PERNAMBUCO


Fazer novela não é fácil. Não é à toa que praticamente uma única emissora tem esse monopólio. O trabalho com audiovisual é árduo e caro. Fazer novela em Pernambuco, então, é muito mais árduo. Tarefa a que ninguém se aventurou nos últimos 36 anos. Até que, cansados de ver os talentos locais irem embora, qual retirantes, tentar a vida no Sudeste, um grupo de roteirista, produtores, técnicos e atores resolveu encarar o desafio.

E que desafio! De início, enfrentar as críticas, dúvidas e negativismo de todos os que chamavam o projeto de “loucura”. Depois, sinopse na mão, montar a equipe de base. Em seguida, achar parceiros que acreditassem no projeto e resolvessem aderir ao sonho. E, ao apresentar o projeto, a agradável surpresa: alguns dos melhores atores de Pernambuco abraçaram a causa de imediato, e choveram solicitações para participar da novela.

Durante três meses, os atores trabalharam os personagens, enquanto a equipe de base corria atrás de apoio. E finalmente surgiu um empresário de visão que tornou-se o grande parceiro desse sonho coletivo. Dessa forma, o projeto Aitaré da Praia tornou-se uma realidade numa co-produção da Cultmídia (Francisco Amorim & Mariú Gondim) e da Estação TV (João Florentino).

Ainda era pouco. A Cultmídia, responsável pela direção, produção e arte, e a Estação TV, pela câmera, equipamento técnico e edição, ainda precisavam de outros apoios. Havia todo o figurino, o cenário, transporte, alimentação, os cachês para serem pagos, enfim, a estrutura para ser montada. E a falta de recursos, que poderia ter sido um fator intransponível, tornou-se uma alavanca para a criatividade e a união da equipe. Para montar o figurino, por exemplo, peças de brechó e bazar de igrejas se juntaram às peças trazidas pelos próprios atores e cedidas por algumas lojas. Na impossibilidade de construir uma cidade cenográfica, estão sendo utilizadas locações reais, casas de pescadores, bares e a casa de praia de um empresário local. Os cenários, além dos móveis da Living Interiores exibe peças de artistas plásticos locais como Iara Tenório, Fernando Kehrle, Christianne Cysneiros e Tathianne Quesado, além de adereços e accessórios pessoais da própria equipe. Os pescadores de Barra de Jangada cedem seus barcos e apetrechos, gratuitamente, em solidariedade ao esforço que vêem toda a equipe realizar. Atores e técnicos investem em seu próprio futuro, esperando a finalização da obra para receber seus cachês.


Assim, “Aitaré” vai tomando forma, revelando paisagens e talentos, numa sucessão de imagens belíssimas. E a qualidade do trabalho realizado a cada dia renova as forças para mais um dia de gravação, mais um dia de construção de uma obra que resgata um marco do cinema, por ser livremente inspirado no filme homônimo de Ary Severo, de 1925, além de trazer a esperança de um futuro melhor para os artistas pernambucanos.

Desde Maio de 2004, quando foram iniciadas as gravações, são 63 atores e 35 técnicos que trabalham arduamente em prol de uma obra que vai beneficiar toda uma classe, que vai mudar o mercado de trabalho artístico e técnico de Pernambuco. Alguns desistiram no caminho, seja por falta de forças, seja por motivos pessoais. Mas o núcleo persiste. Porque todos entendem que estão construindo o futuro, fazendo história. A equipe conta com a Direção de Francisco Amorim, Direção de Arte de Mariú Gondim, Direção de Produção de Telma Mendes, Continuidade de Tathianne Quesado, Cenários de Christianne Cysneiros e Fernando Kehrle, Assistência de Direção de Pedro França e Iluminação de Sandro Moreira. No elenco, nomes como Artur Tigre, Hermylla Guedes, Henrique Pontual, Bobby Mergulhão, Eduardo Japiassu, Isa Fernandes, Cida Alencar, Ana Montarroyos, Ana Cláudia Wanguestel, Manoel Constantino, Renato Phaelante e muitos outros.


Pouco a pouco, mais e mais empresas foram aderindo ao projeto. E assim, o transporte é feito pela MWM Locadora, a alimentação conta com a Cia do Chopp, Laça Burguer, Come-come, Ilha da Kosta, Red’s Burguer, Anjo Solto e Clube da Panqueca, entre outros, A Prata do Vale e o Café Petinho garantem a reposição de forças no intervalo entre as cenas, a Artset gráfica digital colabora para as cópias de textos, a Dona Quitinha, junto com a Sal Marinho, veste a moda praia dos protagonistas, a Living Interiores cedeu os móveis para os cenários. E ainda, o Detran, a Prisma, a Ótica Loyon, o Hotel Pousada de Candeias, o Park Hotel, a Check-up Med... Cada uma dessas empresas contribui para que as gravações continuem, para que o sonho não acabe, para que as forçam não esmoreçam... Porque entendem que é preciso acreditar no talento e na cultura de Pernambuco, fazendo com que seus artistas possam viver da arte em sua própria terra. Porque entendem que entretenimento é um trabalho sério, feito por gente que luta, que vive e engole seus próprios problemas para levar alegria e diversão a todos. Porque sabem que televisão é ainda o melhor veículo para divulgar suas marcas, e que novela é o principal produto televisivo do país.

Fazer novela em Pernambuco, neste momento, é desbravar um mundo novo e desconhecido. É viajar de diligência, em meio a paisagens inóspitas e perigos insuspeitos. Mas é também sentir o prazer de construir um novo espaço para todos os que vivem da e para a arte. É sentir o prazer de ver novos talentos desabrocharem, tanto no elenco como na área técnica e outros se solidificando, se especializando. É saber que se está contribuindo para a formação de novos profissionais e o desenvolvimento dos que já atuam na área.

Fazer o projeto Aitaré da Praia se concretizar e chegar a público é abrir as portas para a profissionalização dos que fazem arte, para a divulgação das empresas e produtos locais, da beleza natural de nossas praias, de nosso jeito de ser e viver. É eternizar nossa cultura, mostrando que a arte é um produto que pode gerar renda e empregos sem perder sua função primordial de entretenimento e beleza.

*Mariú Gondim
Produtora Executiva e Diretora de Arte
*Set. 2004

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

* UMA MULHER

Sou uma mulher em marcha.
Nem sempre sei direito
Qual o rumo,
Qual o sentido,
Mas nunca perco o contato
Com o objetivo.

Sou uma mulher em luta
— Nem sempre tão profícua —
Contra preceitos,
Preconceitos,
Velhos fantasmas e medos,
Dúvidas e limitações.

Sou uma mulher em busca
Do sentido maior da vida,
De conhecimento, unidade,
De equilíbrio e justiça,
Da cura para as feridas
E do prazer de sorrir.

*Jun.1988

* ALUCINAÇÃO

Sonho e realidade se misturam
Arte e vida, assim,
De tal forma entrelaçadas,
Que já nem sei se é platéia
Onde me encontro
Ou se, perdida, estou no palco,
Deslocada.
Personas se sucedem, infinitas
A dor em um segundo vira riso
O descaso é o desejo disfarçado
Solidão vira recolhimento
Felicidade vem tão grande que até dói
E as emoções que se entrechocam no meu peito
Giram, loucas, alucinadas
Em carrossel sem freio, sem parada.
Como no disco de Newton, as cores se misturam,
Ficção e realidade, assim, coladas
Mudam os tons que vejo, num instante
Do mais puro cinza
Ao arco-íris deslumbrante.
E meu coração já tão cansado
De ver seu sentir assim espezinhado
Bate como um louco, em disparada
Não de paixão desenfreada
Mas em fuga, sem destino, sem
morada.

* Mar.2002

* POR-DO-SOL

Nenhuma hora do dia exprime tanta beleza.
Nenhuma é tão nostálgica, também.
E esta foto resume tudo isso, pois é bastante antiga e foi tirada num momento de intensa alegria, com um grupo de grandes amigos. Que, no entanto, se espalharam pela vida e hoje quase não se vêem...

Mas, da mesma forma que na foto, ficou a beleza dos momentos que passamos juntos. E se hoje os caminhos se distanciaram, ficaram as marcas da convivência, nem que seja na lembrança eventual de cada um.

Hoje estou nostálgica.
Com saudades de mim. De um tempo em que eu acreditava firmemente na beleza, nas relações humanas, nos afetos. Eu sou colecionadora de afetos. E na minha enorme galeria guardo com carinho cada uma das pessoas que encontrei ao longo do caminho. Para cada um, um lugar de destaque, com direito a flores de sorrisos e fitas de sinceridade.

Os amigos... Muitos se foram, perdidos pra vida ou pra morte. Outros, desbotaram com o tempo, porque o material de que eram feitos era sintético. Outros, simplesmente abandonaram o posto. Mas ainda assim, tenho para cada um dos que se foram um quadro na parede da memória. E se as luzes que davam brilho aos meus olhos foram quebradas pelas pedras da insinceridade ou da ofensa recebida, restam as flores do MEU afeto que foram verdadeiras.

Procuro esquecer que nem sempre o afeto foi recíproco e pensar apenas nos bons momentos que vivi. Procuro pensar que se o que fiz de bom foi ignorado ou desvalorizado, não fui eu que perdi, pois dei o que tinha de melhor. Procuro iluminar as paredes da memória com as luzes de sorrisos e o calor de abraços recebidos.

E lembrar que o nostálgico por do sol muitas vezes dá lugar à lua cheia que prateia os caminhos. E que, mesmo depois da noite mais escura, nasce um novo dia, aquecido pelo mesmo sol que aqueceu o primeiro dia do planeta.

Sobretudo, jamais esqueço que em meu peito bate um coração capaz de se maravilhar a cada dia com a beleza e o amor.

*01.Jul.2005

* DE RÉDEAS SOLTAS

Deixa-me perder as rédeas
E desabar em teus abismos
(mais profundos),
E subir contigo
Aos picos mais altos
Do mais recôndito lugar
Do EU verdadeiro,
do teu EU mais sincero.
Deixa-me perder-me ness
e labirinto


De emoções que me transmites
E me achar no sussurro de tua voz,
ou nas asas do teu beijo mais doce.
Deixa-me percorrer contigo
Todos os teus caminhos,
E ser para ti
A pedra que falta,
A fonte que transborda,
A sombra,
A luz,
A água,
A vida...

*1982

* HOMENAGEM A ADELSON DORNELAS

Taí Adelson, junto com DaPaz, no dia em que gravou sua primeira cena desse projeto que pretendeu ser tão grandioso... A gente quase não se conhecia. Rápidos papos em encontros casuais, em meio a espetáculos e eventos. E de repente ... lá estava Adelson fazendo parte de nosso elenco. Alegrando um dia tenso (o primeiro dia de gravação) com sua tranquilidade, seu vozeirão, sua energia tranquila e seu talento...

Como foi bom poder trabalhar com uma pessoa assim, tão profissional, tão simples, tão doce! E apesar de não termos podido manter um contato mais próximo, ficaram marcas desse seu jeito tranquilo. E, como sempre, a idéia de que ainda poderíamos sentar e bater longos papos, a certeza de que ele faria brilhar aquela personagem que, apesar de uma participação pequena, tinha uma importância tão grande na trama...

E a espera pela chegada do momento de vê-lo gravar as outras cenas de sua personagem, a brincadeira a respeito dessa espera, a ansiedade que ele a custo controlava...

Esse dia nunca chegou. Nunca mais vai chegar.

Vi Adelson pela última vez há 7 meses, quando circusntâncias alheias à minha vontade me fizeram abandonar o projeto. Na ocasião, me tocou o coração vê-lo com os olhos cheios de lágrimas lamentando minha saída. Sua solidariedade com a minha dor me comoveu. E me fez admirá-lo ainda mais. E renovar a vontade de conviver mais com essa pessoa que, mesmo um pouco distante, se mostrava tão próximo. Mas o tempo necessário para a cicatrização de minhas feridas adiaram mais uma vez esse propósito. Nos falamos por telefone algumas vezes, fizemos alguns planos de futuros trabalhos... Mas nunca mais nos encontramos.

Agora, a violência urbana tirou-lhe tragicamente a vida. E senti uma enorme nostalgia. Uma tristeza imensa pelo amigo que apenas se anunciava e pela pessoa linda que transparecia nos mais breves contatos.

Uma tristeza pelo vazio que ele deixa nos palcos, nas telas, na vida dos que tiveram o privilégio de conhecê-lo e conviver com esse ser humano especial. Tristeza pelo vazio que sua luz vai deixar nesse mundo conturbado.

Mas, pelo pouco que conheci de Adelson, tristeza não era uma palavra que deveria ser ligada a sua pessoa. Pela alegria que ele irradiava, acredito que ele prefereria ser lembrado por sua vida, sua doçura, sua simplicidade. E, graças a Deus, estrelas não morrem, apenas mudam de lugar e vão brilhar em outros céus. E, como o grande artista que foi, ele nos deixou a memória de seu talento, de seus trabalhos, da alegria que proporcionou a seu público e seus amigos.

Vai em paz, Adelson. Vai levar tua alegria a outras platéias. E aqui a gente guarda o eco de teu vozeirão, de teu talento e tua amizade...

Muita luz...

*29.Out.2005

* AMIGOS

Coisas ditas ao acaso,
Tradução de sentimentos.
Reflexos...
Mundos construídos aos poucos,
Mundos que ruíram ao vento,
Mundos coloridos
Que nos preenchem a vida.

Pedaços da gente
Que se vão ao longe,
Pedaços de gente
Que nos marca,
Que passa e se vai,
Mas que fica na gente
Nas coisas que diz,
Nas coisas que faz...

*1978

* RECANTO SECRETO

Viver a vida pelo avesso,
Sentir a seiva que corre
Por dentro da pele, dos olhos, da alma
Saber que existe um átrio
Verde e iluminado
No centro de si mesma,
Onde só uns poucos iniciados têm acesso.
Deixar apenas a porta entreaberta
E vazar por frestas essa luz
Que alguns poucos entreverão dourada
E a muitos ofuscará
Pelo inusitado e a intensidade.
Guardar como um tesouro esse recanto
E ali deixar correr em liberdade
A alma
Em toda a sua cor e plenitude.

*2002

* SE EU FOSSE ARTISTA

Se eu fosse artista
Te diria em versos
Todo o sentimento
Do meu coração
Acharia o tom
Cantaria as modas
Te faria o tema
Da minha canção.
E esse tormento
Que me aperta o peito
E vaza nos olhos
Eu espantaria
Com a minha cantoria.

Quem dera eu fosse capaz
De traduzir o bem
Que esse amor me faz
De espantar os medos
E arrancar o mal
Todinho pela raiz
De ser tua amada
E te fazer feliz!

*1990

* UM ANJO DORME

Um anjo dorme.
E ao dormir esquece que é um anjo.
Apenas o homem permanece
E no sono esquece que é de ferro.
Deixa-se embalar no sonho
E transparece
Em cada gesto o seu carinho.
Os movimentos são suaves
E, desprovidos da tensão e da censura,
Enlaça o ser amado na cintura
E esquece a decisão que não devia.
No sono,
Apenas o sentimento se acorda
E o inconsciente manda e transporta
Para um mundo onde o amor reina,
Soberano.
Braços e pernas se enroscam num abraço
E apesar de continuar adormecidos
Dois corações voam, libertados,
Deixando que o amor dê mais um passo.

*Abril.2002

* LARVA

Larva.
Casulo.
Bicho em mutação.
Nada mais somos do que isso:
Lagarta que se fecha e se transmuta
E talvez um dia vire mariposa
Ou, quem sabe, a mais linda borboleta.

*Abril.2002

* PORQUE FAÇO POESIA

Faço poesia
Não porque eu seja poeta,
Mas porque meus versos dizem
O que o coração sente
E os lábios não querem ousar.
Faço poesia
Só para cantar a vida
Num tom que a voz não alcança
E nem os ouvidos querem escutar.
Faço poesia
Para talvez atingir a alma
De um distante-próximo
Que não ouso encarar.
Faço poesia
Para me dar inteira
Ao mundo, à vida, a ti
Que talvez nem vejas
Nada do quanto te quero mostrar.

*Out.1984

* NASCIMENTO DE VÊNUS

Questionar a vida, o comportamento, o relacionamento sempre foi uma sua característica forte. Esse ser que só agora começava a despir as armaduras de guerreira que já faziam parte de seu próprio corpo. Armaduras tão antigas quanto conseguia se lembrar. E que a protegiam tanto e tão bem que quase a separavam do mundo belo e hostil lá fora. Agora, começava a questionar todo esse questionamento, a tentar tirar o que ainda restava daquelas peças de guerra que compunham seu dia a dia.

 Dava-se conta que vestira a armadura ainda tão jovem que crescera dentro dela e ela se amoldara a seu corpo. Verdade que ela a protegera de frio e de espinhos. Mas também a separara da maciez do contato da relva e da cor saudável dada pelo sol. E a impedira de aprender a manejar objetos mais delicados que a lança e a espada, ou de praticar esportes mais suaves. Apenas sabia lutar e manejar as armas. Montar e cavalgar solitária era a expressão de liberdade dessa guerreira. E então se tornava parte de seu cavalo.

Um dia, caiu. E na queda, perdeu o elmo. Assustou-se com a claridade forte que lhe feriu os olhos. Sentiu-se desprotegida ao contato da brisa fresca a tocar-lhe o rosto. Levou muito tempo até realmente entender e apreciar o que estava acontecendo. E se deu conta que aquele toque e o calor do sol lhe davam prazer.

Quis tocar o próprio rosto, mas o peso da mão enluvada apenas conseguiu feri-la. Foi quando deu-se conta da couraça que a cobria. E também do quanto estava presa ali dentro, do quanto sufocava.
 
E chorou; de impotência diante das belezas que não podia tocar e de revolta contra uma armadura que não queria mais e da qual não conseguia, não sabia livrar-se. Passou a ser apenas uma estranha: não havia espaço para ela nesse mundo de cores e texturas que descobria e perdera o lugar nas fileiras cinzentas e rígidas de sua armada.

Conheceu o inferno da busca, da solidão e do desamparo. Vagou sem rumo pelos prados até que alguém ajudou-a a se livrar das pesadas luvas de guerra. E ela descobriu o prazer de sentir a textura e a forma das coisas, o prazer de tocar. Com mãos livres, podia sentir o mundo!

Bem cedo descobriu que isso era muito pouco. Era quase nada. E aprendeu a tristeza. Mas aprendeu também a usar os dons que descobrira, o milagre do toque. Assim, foi pouco a pouco se desvencilhando das placas de ferro que cobriam seu corpo. Algumas caíam mais fácil, outras exigiam esforço e até alguma dor. Nem sempre conseguia livrar-se delas sozinha e, às vezes, quem a ajudava também se feria. E partia. E, então, ela se sentia triste e só. Muitas vezes se sentia perdida e tentava voltar ao velho abrigo, mas seu corpo não mais aceitava o peso da armadura. E não lhe restava alternativa a não ser prosseguir.

Não tinha idéia do resultado final, do que existia sob a couraça. Descobria aos poucos, à medida em que se desnudava. Tentou usar as placas de metal como espelho, mas só obtinha imagens distorcidas. E as pessoas que encontrava eram tão contraditórias... Sem falar que era estranho perguntar a alguém: “como é que eu sou?”. Não. Precisava aprender de si sozinha. Como também precisava aprender o mundo, as cores, as formas, os cheiros, as vidas. E ela que sempre pensara que isso se nasce sabendo...

Vagou muito. Entrou em muitas ruas que não levavam a lugar algum. Confundiu muitas estátuas com pessoas e assustou-se por descobri-las imóveis e frias. Às vezes, por hábito e por medo, voltava a lutar. E se feria muito, pois que agora estava desprotegida. E, por falta de hábito, nem sempre compreendia os curativos que por amor lhe eram feitos. Por isso, continuava a sentir-se estranha e só.

Um dia, viu-se nas águas de um regato. E o sol iluminou-lhe o olhar, que ela descobriu belo. Tão belo que não acreditou ser o seu próprio. E olhou de novo. E entrou fundo nas águas, que se abriram para recebê-la num abraço de amor. Com as águas, as últimas placas de sua armadura amoleceram e caíram. Deu-se conta, estupefata e maravilhada, de seu próprio corpo, de suas próprias formas. Deu-se conta do prazer que a água fresca lhe trazia e adorou se deixar secar ao sol, sobre a relva, como a mais primitiva das criaturas!... Sentir o calor dos raios do sol em seu corpo nu, deixar os perfumes do campo invadirem suas narinas e sorrir de prazer com as carícias do vento era uma descoberta nova para esse ser que passara de forte a frágil. E que só agora entrevia o equilíbrio, que só agora vislumbrava a promessa de plenitude como algo real e possível.

E ao se permitir esse contato pleno com o que havia demais primitivo, animal e puro em si mesma, ao se despir por completo de questionamentos e armaduras, é que esse ser se viu inteiro e belo — nem forte , nem frágil, apenas um ser inteiro.

E pode, enfim, conhecer seu próprio nome:
                      mulher.
*Jul.1988

* SONO


É estranho ver dormir a quem se ama.
Despido das tensões e da censura
Esquece num canto do quarto a personna
E deixa livre sua emoção mais pura.

Sua alma ali se expõe, em liberdade
E em seu rosto transparece a calma
Ou a ansiedade.
Não tem como vestir a armadura
Não há espaço para regra ou falsidade:
É ele, apenas ele, por inteiro.
E a realidade desaparece por encanto
Deixando apenas espaço para o sonho
E movimentos suaves ou agitados
Vão traduzir felicidade ou desventura
Independente de ser observado.

É doce ver dormir a quem se ama.
Ao sono abandonado, qual criança,
O homem forte volta a ser menino,
E instiga em quem olha um só desejo:
O de pegar no colo e junto ao peito
Acalentar este ser tão desarmado.

E ao ver sonhar tranqüilo a quem eu amo
Em mim desperta um sonho desvairado
O de ser eu a fonte do sorriso
Que ilumina o rosto do meu homem/anjo,
Tão amado.
 

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

* TEATRO FECHADO


C’est fini
Caiu o pano e terminou o espetáculo. O público se retirou e o teatro está vazio. Me vejo sozinha em um palco quase às escuras. Sento-me no meio do palco e olho em torno.

Não há mais nada.
O cenário foi desmontado. Há apenas um enorme espaço vazio à minha volta. Nem mesmo o som dos aplausos ecoa mais. Foi a última apresentação do último dia desse teatro.

Acabou. Para sempre, acabou.
Não mais haverá risos no camarim. Não mais os gritos de alegria na conclusão de uma cena. Não mais o eco das vozes dos artistas. Não mais a energia e a emoção das personagens. Não mais o sonho. Acabou o espetáculo. Desceu o pano.

Deveria levantar e pegar minhas coisas pra ir embora. Mas minhas pernas se recusam a obedecer. Me sinto presa. Paralisada. Sinto ainda no corpo o calor do figurino que usei. E no rosto existem vestígios da maquiagem...

Fui tão bonita!... Pelo tempo que durou o espetáculo fui princesa! E fui querida, fui amada, aplaudida!! Em minhas mãos sinto ainda o calor das mãos do meu parceiro. E no meu corpo a marca de seus braços. Diante dos meus olhos brincam os seus sorrisos e o brilho de seus olhos acende o caminho em cena. Ecoam em meus ouvidos as suas falas que me conduziam por entre os objetos do cenário...

Levanto a cabeça e esboço um sorriso...
Quem sabe foi engano. O teatro não será fechado e haverá ainda uma outra sessão?...

Mas... É inútil. Continua tudo vazio e às escuras como antes. Apenas o frio se intensifica. Foi ilusão. Não há mais nada. Olho pela última vez o lugar onde o sonho ganhou vida e fui tão feliz... está vazio. Definitivamente vazio. Acabou, mesmo. O teatro será fechado.

Sinto as lágrimas rolarem no meu rosto e pingarem lentamente em meu peito. Em cada uma há uma história, há um momento que marcou. E cada uma deixa um sulco de tristeza em minha alma que, talvez, se eu tiver sorte, não seja tão perceptível em minha pele...

Respiro fundo.
Olho em volta uma ultima vez e num esforço supremo me levanto.
Saio calada do centro do palco. Apanho no caminho um adereço esquecido num canto. Guardo na bolsa uma folha do texto... Apago a luz.

Fecho a porta, sem olhar para trás.
Lá fora a escuridão da noite e o frio da madrugada me esperam. Mas, como todo artista, guardo em mim a centelha da esperança. E ainda rezo para que nasça o sol de um novo dia.


*Out.2005

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Cinema, Aspirinas e Urubus

Rating:★★★★★
Category:Movies
Genre: Drama
Filme candidato ao Oscar 2007, na categoria Filme Estrangeiro.
Mariavilhoso!!!! Fico orgulhosa de ver um filme pernambucano representando o Brasil. Roteiro e direção de Marcelo Gomes, Produção da Rec Produções, Maquiagem de Marcos Freire. Atores, técnica... tudo da gente!!!
Parabéns pra João Junior da Rec. Parabéns pra Marcos Freire, mais jovem maquiador a ter um filme indicado ao Oscar e meu grande e querido amigo pessoal...`
É um filme imperdível. Pela fotografia, pelo enredo, pela produção como um todo.
E por ser pernambucano, inclusive.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

* IMAGENS DO TEMPO


De quem são esses olhos
Que me fitam curiosos cada vez que me vejo
No espelho?
Eu uma e eu sou tantas, tão diversas...
São imagens que se fundem, superpostas,
E tantas vezes se confundem
E rodopiam misturando os seus traços
Num compasso incessante de mudanças....

Sou cigana, sou egípcia, sou a bruxa
Olhos vivos, de mistérios milenares...
Disfarçados, maquiados, penetrantes...
Sou a dama recatada, sou a mártir
Olhos baixos, tímidos, suplicantes...
Sou guerreira, sou o bárbaro comandante
Olhos vivos, atentos, vigilantes...

Sou assim...
Sou completa, inteira e fragmentada
Um conjunto do que fui, do sou e o que serei
Muitas vidas, muitos corpos, muitos Eus
Se resumem nesses olhos que me fitam
E escondem tristezas, alegrias e amores,
Segredos, mistérios, tantas dores...
Mas que viram e viveram tantas coisas
E fizeram de mim esse enigma
Essa pessoa dividida e amiga
Tão cheia de afeto e de doçura
De cicatrizes tão profundas e tão leves

Sou cortesã,
Sedutora, sensual, dissimulada
Sou a mãe,
Carinhosa, amorosa e dedicada...
Sou guerreira,
Lutadora, persistente, arrebatada....

Simplesmente...

Sou mulher.
Companheira, amiga, apaixonada....


07/12/2006.