domingo, 21 de janeiro de 2007

* AS PEQUENAS TRAGÉDIAS PESSOAIS

Penso às vezes em nossas pequenas e grandes tragédias de cada dia. E me dou conta de que não existe fórmula para superá-las. Há os que recebem uma cota tão visível de tristezas e horrores... e no entanto espalham sorrisos e alegrias sinceras ao seu redor. Há os que suportam duramente as suas penas, que aos olhos de tantos parecem não existir... Há os que quebram, ou se endurecem, ou simplesmente desistem e baixam a cabeça para que lhes seja colocada a canga... E seguem silenciosamente o rebanho, sem que se saiba sequer que ali existe vida....

A única coisa de que tenho certeza é que a cada um é dada a sua cota. E a cada cota corresponde o tanto e o tipo de aprendizado necessário ao crescimento. Tristeza e loucura nos espreitam em cada esquina. E andam juntas, irmanadas, à espera do tropeço onde possam se apresentar...  E tantas vezes independem do quanto desejamos ver o que de mais belo existe no planeta para ser vivenciado... Apenas a crença inabalável na continuidade da vida e na justiça cósmica permitem vislumbrar que há razões positivas em  tudo o que acontece.

Nada é por acaso. Nada é em vão, como já cantava Carlinhos Vergueiro... E “quem tem estrelas no olhar,não pode se afogar na dor”. E é por isso que insisto em ver beleza no ser humano que tantas vezes se apresenta tão sórdido... O brilho dos meus olhos pode ter esmaecido ao longo dos anos. São tantas as pedras que me jogaram, que quebraram as lâmpadas que iluminavam o meu olhar. Mas continuo a buscar no fundo da minha alma as brasas que sobraram... e a soprá-las até virarem chama outra vez e alumiarem as lamparinas do meu coração.

E, como phênix, consigo renascer das cinzas. Talvez não mais bela que antes, qual o pássaro mitológico. Talvez não mais imaculada e inocente. Trago em mim as cicatrizes das muitas batalhas que travei ao longo da vida. Das quais, as mais ferrenhas foram para resgatar minha liberdade interior, para manter meu coração livre de preceitos e preconceitos idiotas, dos grilhões do medo e do horror da descrença. Mas, com certeza, cada vez mais inteira. Como uma colcha de retalhos que é feita de pedaços díspares, mas acaba por formar um conjunto belo e harmonioso.

Não espero mais ser compreendida em meus conceitos. Sei que minha lógica segue um caminho que difere em muito das normas estabelecidas. Sei que me encontro à margem do que a pequena visão da sociedade materialista ocidental consegue enxergar. E, paradoxalmente, nunca fui transgressora das leis que realmente importam. Nem mesmo das leis dos homens.  Marginalizada, sem ser marginal no sentido que normalmente se dá a essa palavra. Sem ter tido a ousadia dos rebeldes temerários. Mas, ousada, sim. Por aceitar pagar o alto preço de sair do rebanho, seguir as normas do meu coração, abrir as portas da minha casa e da minha vida de uma forma que é incompreensível para a maioria.

Sim, essa maneira de viver já me trouxe muitas dores. Já fui usada, vilipendiada, extorquida, chacoteada. Já cheguei à beira do precipício sem fundo da loucura. Já carreguei o peso inimaginável da tristeza mais profunda. Mas sempre tive uma mão invisível a me segurar no último instante. Porque meu jeito de ver e viver a vida também me trouxe prazeres que o medo faz com que tantos desconheçam... Sorrisos e abraços repletos de um carinho ilimitado, vindos de onde talvez não se esperasse... Lições de vida inusitadas... Vislumbres de mundos que a maioria nem imagina que existam.... Simplesmente porque os preconceitos impedem que se aproximem o suficiente para descobrir o diamante que se esconde em cada pessoa.

E me trouxe, sobretudo, a certeza de que talvez eu não receba o afeto e a consideração de alguns. Às vezes, até de quem me seja mais caro. Mas que não sigo sozinha. E que, sempre, em muitos lugares desse vasto mundo de meu Deus, haverá “um abraço amigo, um canto pra dormir e sonhar”... E que, ao deitar no travesseiro e dormir o sono leve de quem tem a consciência limpa, sempre haverá anjos velando por mim, chamados não por meu merecimento pessoal, mas pelas energias positivas de tantos que me têm afeto verdadeiro.

Apesar das minhas pequenas grandes tragédias pessoais, sou abençoada por não ter perdido o sentido da gratidão nem a fé. Tive, tenho e terei um caminho solitário, eu sei. Mas iluminado pelos sorrisos de tantos que encontrei pelo caminho e deixaram em mim sua marca de carinho, pelas lembranças de pequenos momentos inesquecíveis, pelo som de um riso de alegria, por prazeres simples que foram compartilhados. E, principalmente por continuar acreditando que o ser humano é o que de mais fascinante existe no Universo.

*Jan.2007

Um comentário:

Albérico M. Silveira Filho disse...

Querida , como já dizia RILKE : " A MAIS ELEVADA TAREFA NUM RELACIONAMENTO ENTRE DUAS DUAS PESSOAS É CADA UM PROTEGER A SOLIDÃO DO OUTRO " . Sinta-se sempre acompanhada ! Beijos ! Adorei o texto ! BRAVO !!!!