Como eu posso não lembrar de onde conheço a pessoa que me cumprimenta, quando trago tão vívida a lembrança de fatos da mais tenra infância? Mas é assim. Ao lembrar de algo, revejo a cena inteira, me lembro de cheiros e gostos, sei a posição em que cada um estava na mesa, a roupa, os olhares e risos... os detalhes. E de repente, embaralho as imagens, confundo pessoas, sei que conheço mas não sei de onde, esqueço nomes...
Talvez seja justamente por lembrar tanto. Pois que trago em mim a lembrança de fatos aparentemente sem importância, encontros fugidios, pequenas coisas. Acho que trago a herança de Adriano Hélius, Imperador Romano do Século II, que dizia que nenhuma glória do império poderia substituir o prazer frugal de uma água bebida num regato, na mão em concha, após uma caminhada. Dou valor às pequenas coisas... Agradeço por pequenos gestos de carinho, guardo bobagens insignificantes em termos materiais... Mas as coisas para mim valem pelo que significam, não pelo que custaram.
Desculpem-me aqueles a quem já cometi a descortesia de esquecer o nome. Mas é que minha memória se abarrota de lembranças assim... Ela sabe o sabor do primeiro beijo, da sobremesa gostosa preparada especialmente para mim por alguém especial, o som de uma voz amiga num momento de tristeza, do riso de um amigo ao dividir um sucesso, a textura macia de um cabelo em que fiz cafuné, do peso suave de uma cabeça querida que deitou em meu colo... Minha memória tem caprichos que nem eu mesma domino. E insiste em guardar a ternura de momentos que aos olhos do mundo pareceriam banais. Momentos simples compartilhados com pessoas que eu considero especiais. E pra quem tantas vezes não sou mais que um passante.
E que me importa se as lembranças não são recíprocas? É da minha memória que cuido, são os meus tesouros que guardo, é o meu coração que ela aquece... Sim, sou egoísta quanto a isso. E zelosa, também. Mas, jamais, mesquinha. Estou sempre disponível a compartilhar os tesouros que trago guardados... E eis que ao me conhecer, leva-se um kit completo de lembranças e amigos possíveis... Pois que adoro tirar do baú minhas lembranças (algumas, de tão antigas, ainda em preto e branco, como disseram tantas vezes...) e dividi-las com outros que me sejam igualmente caros.
E há sempre um espaço sobrando para guardar novos momentos, novos gestos de carinhos, novos sorrisos, novos amigos...
*Jan 2007
Um comentário:
Simplesmente sublime!
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