É preciso entender que a vida segue seu curso, por mais despedaçado que esteja o nosso coração, que envelhecemos e perdemos o brilho por mais jovial que seja o nosso espírito, que nosso tempo também passa, por mais que ainda não tenhamos concretizado nada do que sonhamos.
Nesse momento, é preciso, então, ter a sabedoria do velho elefante que se desgarra da manada e espera sozinho sua hora final. Sem mágoa nem melancolia. É preciso se recolher, se conhecer e saber a hora de deixar o grupo. Esse deixar pode nem ser definitivo. Pode ser apenas um momento de deserto. Mas é necessário. E importante.
É um hibernar de inverno para ressurgir na primavera.
Mas preciso reencontrar meu espaço interno, meus limites, o prazer de estar comigo, o silêncio. Talvez um teste. Comigo e com os outros. Andar com as próprias pernas. Deitar no próprio colo. Receber os próprios carinhos. E talvez fazer falta a alguém. Talvez ressaltar marcas que deixei e que foram deixadas em mim. Espírito de cigana, de andarilha, herança atávica de tribos nômades ancestrais.
Quíron, o hierofonte. O ser capaz de curar a todos sem jamais curar a si mesmo. Oxossi, o símbolo da insatisfação humana que procura nas matas um animal inexistente. O eterno voejar em torno a outrem, à procura do que não se consegue encontrar em si próprio. Abelha à cata de mel em todas as flores. Encontra-se o mel, mas não se pode reter o perfume.
Preciso encontrar em mim mesma cada uma das coisas que me faltam, que me faltaram a vida inteira. Antes que já não seja possível procurar mais nada. É em mim que preciso encontrar a paz. O afeto. O aconchego. O respeito. A consideração. A força. A beleza. A sensualidade. A importância. A prioridade absoluta. O amor. É em mim que preciso buscar a suficiência. É de mim que tem que vir o prazer orgástico de plenitude.
Quisera ser hermafrodita. Ter em mim a essência feminina e masculina. A auto-suficiência em sua expressão mais absoluta. Impossível, eu sei. Mas posso ter a suficiência da plenitude, da autonomia. Posso me bastar. Sem que isso resulte em amargura nem isolamento eremita. Nem que isso resulte em dureza fria.
O humano é só. Sabedoria lispectoriana. O humano é só, belo, forte. O mito do andrógino pode realizar-se em mim, em nós. Nós podemos nos abraçar a nós mesmos e sermos nossa própria cara metade. Nós podemos encontrar em nós mesmos nossa fonte de energia e prazer. E, talvez até transbordá-la para outros. Ou beber em outras fontes, eventualmente. Mas qual camelo em travessia de deserto, é imprescindível ter uma reserva suficiente de água para sobreviver.
E água, é vida. É energia e prazer. É amor e movimento.
Quero ter a profundeza do mar, que abriga, mas se basta. Quero ter a leveza da cachoeira que resiste a um grande salto e de sua queda gera energia. Quero ter a liberdade do vento que sopra indiferente a quem é por ele tocado. Quero ter o calor do sol que brilha independentemente do que esteja exposto. Quero ter a luz da estrela que cintila apesar das nuvens impedirem que a vejamos.
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