domingo, 24 de junho de 2007

* A MÁQUINA DO TEMPO

Os pés descalços sobem uma escada em espiral. À medida que avançam, o tempo gira e gira até parar em frente a uma porta. As imagens são difusas, parecem nuvens ou manchas abstratas de um quadro surrealista. Após um segundo de hesitação, a porta é aberta. E do outro lado...


Uma névoa encobre a paisagem. As nuvens se condensam e mudam de cor. Vão do mais escuro cinza ao lilás claro. Às vezes é possível vislumbrar luzes por trás de uma colina longínqua, como uma cidade que se vê numa estrada sinuosa à noite. Mas a névoa continua encobrindo tudo. Parece que vai permanecer ali o tempo inteiro.

Aos poucos, uma fresta se abre. E vultos, silhuetas, começam a se tornar mais nítidos. E as sensações se tornam mais claras, também. Às vezes as manchas abstratas persistem, mas tudo começa aos pouco a fazer sentido. E um tema parece surgir do nada. A Voz diz um ano, um lugar. E como uma serpentina que se desenrola, vai surgindo o fio da história...

De repente, eis aí a floresta cheia de cachoeiras, o campo com o cavalo branco do cigano, uma adaga que escorrega da pedra e cai no regato... E rostos fugidios que surgem e  somem antes de serem realmente vistos. Mas eu sei. Sei que era ali que o meu povo acampava. Sei que a adaga era dele, como era ele o homem moreno de camisa branca que se movia como uma imagem fora de foco. Uma simples mancha branca encimada por uma cabeça de cabelos escuros, uma faixa vermelha na cabeça... Uma cena em câmera lenta, vista numa tomada zenital, como numa grua. Impossível ver o rosto. Só a mancha branca que se move em meio ao verde do campo. Sei que eu o observava por entre as árvores... Para que?

O tempo gira e agora é um povo de pele escura que caminha num deserto pedregoso. Vive em cavernas, carrega fardos. A vida é dura, o povo é triste, faminto. Não há glamour. Não há tragédias, exceto a de viver. Viver ali é um ato de coragem. Ou um castigo. E de novo a floresta vem mostrar a leveza e a alegria dos ciganos. Por que a adaga caiu no regato? Não sei dizer. Não é a hora.

Pois eis que entre as frestas das rochas surge um muro de pedra. Um casebre ao lado de um castelo. E um camponês de roupas simples em tons de terra. Eu sei que ele sabe mais do que parece. Eu sei que ali tem outra história...

E dessa vez, a névoa me transporta à Irlanda do século XVIII. E mais pressinto do que vejo o dono do casebre. A Voz me conta sua história, e aos poucos as nuvens me permitem vislumbrar algumas cenas. Até mesmo os olhos do homem Sábio que instruía o camponês em seus caminhos... E ouço como foi lidar com o desconhecido, e aprender o que então era considerado proibido. E a tentação de ganhar mais, de ser querido e necessário... E o preço de ver o que outros não viam.. A dor, a tortura, o fogo... E o perdão àqueles que o traíram...

De novo gira o tempo e dessa vez é uma mulher vaidosa que se enfeita, em frente ao que de melhor a Idade Média lhe oferecia. A Voz me conta outra história, e algumas cenas pontuam o que escuto. Mais ouço do que vejo o arrastar de vestidos pesados de veludo, o peso de móveis maciços e paredes de pedra de um castelo. Janelas altas, ar abafado... E as saídas em liteira ou carruagem, fingindo ignorar o rosto amado. O contraste entre a riqueza do marido indiferente e a doçura do homem pobre, abandonado. E voz me conta do desespero que se segue... da ânsia de preencher esse vazio, do coração endurecido, da frieza... Enquanto o homem amado luta... e tira vidas em guerras insensatas, tentando exorcizar os seus demônios... E o arrependimento chega muito tarde, deixando um corpo alquebrado e triste abandonar a vida na solidão e no vazio que escolhera...

Mais uma vez gira o carrosel do tempo... e surge um belo campo de lavanda... E a paisagem é uma velha conhecida... Não preciso ver para saber que é ali que existe uma casa de pedra, com uma roca de fiar no alpendre e um porão úmido. Revejo uma bela vista da floresta e do campo de lavanda. Eu sei. Já senti aqueles cheiros. Eu sei que ali mora um jovem casal. EU sei que houve uma tragédia e ele morreu. E a Voz me confirma essa certeza. Me diz que eles eram jovens e belos e queridos na aldeia onde moravam. E que por um breve período foram felizes. E que se amavam... E explica que foi preciso ser breve o tempo juntos, para que os ressentimentos não fossem mais devastadores que o fogo. E são tantas coisas belas que são ditas... É tanta emoção no reconhecimento dessa Voz... Que aos pulos o coração quer prolongar essa visita!

E a cada vez que os pés descalços descem a já tão conhecida escada são tantos os presentes que trago comigo... São peças de um mosaico que aos poucos vou montando... É tanto conhecimento, tanta sabedoria... Nada é em vão nem desperdiçado. São lembranças que resgato a cada dia, são histórias, são vidas, são lições... E mesmo quando só vislumbro uns pedaços.. eu simplesmente Sei. O fio do novelo é revelado e posso desenrolar o resto... e saber as sensações, os pensamentos, os desejos...

Mas é hora de voltar e retomar a escada em espiral. E aos poucos desfazer os nós do tempo.... até a próxima subida... E é claro que haverá outras subidas,outras viagens... É uma fascinante máquina do tempo. E me leva à mais fascinante e fantástica das viagens: o auto-conhecimento.

06. Fev. 2007

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

* DOÇURA

Melancolia.
Quase tédio.

Uma tristeza que vem vindo devagarinho e se apossando de todo o espaço livre. Não é uma tristeza doída: é quase uma doçura, quase um carinho. É uma tristeza gostosa, quase... amiga. É uma tristeza de saudade.
        
É a falta que faz um carinho que é da gente e que a gente sabe que está à espera, sentindo a mesma falta. É a quase presença de alguém.
        
Não, não é amargura, apesar de ser a tristeza que há num coração sozinho, vazio. É a tristeza-esperança do sonho, da vida. Da certeza que a solidão vai acabar um dia: que o amor está escondido em uma curva da estrada ou em uma dobra da roupa.
        
Sinto a doçura dessa tristeza que vem num sussurro, nuns olhos molhados. Sinto o aconchego que poderia ter se...
“Se”, o quê? “Se”, nada. Apenas “Se”. O aconchego que tenho direito a ter; que já tive e que terei um dia.
        
Sinto a presença dos seres amados, amigos, distantes. E tão próximos. E tão dentro de mim. Sinto a energia que emana desse sentir, que me fortalece e me gratifica. E me vivifica.
        
         Sou uma mulher.
         Sozinha.
         Bonita.
         Forte. Frágil.
         Cheia de amor e vida.
         E a doçura desse momento me basta, por ora.

.Fev.1987

* PERMANÊNCIA

- Anaïs & St. Laurent
Acordar.
E sentir ainda em meu corpo
O teu perfume,
Que nada tem de especial
Senão o fato de ser teu.
O teu cheiro...
A tua presença que persiste;
Mesmo ausente,
                           permaneces...
Amanhecer.
À luz difusa dessa incerteza
Entre a noite que vai
E o dia que se instala,
Tua presença;
Em cada objeto da sala em desordem,
Em cada parte de mim,
Em cada som,
Nos resquícios do teu cheiro
Que se mistura ao meu,
Permaneces.
Tudo parece falar de ti.
E essa permanência
Em mim,
Nas coisas,
No ar,
Só faz ressaltar que faltas.
Que me faltas.
Essa não-presença tua
Que persiste...
.1983

* AMOR PRÓPRIO

A gente aprende que a maturidade chega junto com a sabedoria e a idade. Que vã idéia! A cada dia me descubro mais e mais incompleta. E cheia de ansiedade e lacunas a preencher numa vida que jamais consegui sentir realmente plena. Revisões de comportamento, de posturas e valores. Desejos, muitas vezes inconfessáveis e inconfessados até pra mim mesma.

E, no entanto, estou calma. Em ebulição por dentro, mas tranqüila na superfície. Sinto brotar em mim uma magnitude diferente. Parece que, enfim, a mulher que posso ser está prestes a surgir, a florescer. Unidade. Plenitude. Integridade. Não no sentido comum desta palavra: não no sentido moral, de honestidade e confiança. Mas integridade no sentido de integração, de coesão das múltiplas facetas de que sou feita. Inteireza, talvez seja mais exato.

Estou em profundo contato com meu EU interior. Não mais daquela forma infantil e fantasiosa que marcou minha adolescência e juventude. São frases que me soam familiares, que tantas vezes usei em meus escritos, mas cujo significado me aparecem de modo tão diverso, apesar de tão iguais.

Não, não enlouqueci. Nem regredi. Talvez agora eu tenha realmente avançado nesse conhecimento da minha matéria mais íntima e verdadeira. Talvez só agora eu vislumbre o que procurei a vida inteira. Talvez só agora eu me esteja realmente enamorando de mim mesma e descobrindo o amor primordial, que é o amor próprio.

Por toda a vida, procurei num outro ser o amor que me faltava. E esbarrei sempre na pouca confiança que tinha de ser merecedora de amor tão grande quanto o que sei ser capaz de dar. Sempre dei muito, por achar que tinha pouco de mim mesma a dar. E, de certa forma, me senti traída e reconfortada ao mesmo tempo por não me ver amada de forma tão intensa. Traída, por ser injusto. Reconfortada, por que já o esperava. Reconfortada, por me fortalecer e continuar a busca, apesar das quedas.

Hoje, quero primeiro encontrar em mim mesma esse amor. Não mudei do dia pra noite. Não perdi a ânsia de agradar, de conquistar, de ser querida. Mas entendi os mecanismos que usei pra sabotar essas conquistas e resolvi trabalhar neles, eliminar de vez as armaduras com que me revesti a vida inteira. Armaduras que julguei haver jogado fora há muitos anos. Mas que, vejo agora, apenas troquei por materiais mais suaves e quase imperceptíveis a olho nu.

Hoje, estou pronta. E disposta a uma mudança efetiva de atitudes.
“Que venha essa nova mulher de dentro de mim”, como diz a música.

Não encontrei a resposta aos meus problemas... Mas descobri quem posso e quem quero ser. E, melhor, como posso chegar a ser essa mulher maravilhosa que prendi dentro de mim por um tempo tão longo de exílio... Não vou entrar na armadilha da autopiedade e lamentar os anos mal vividos, as emoções truncadas, os amigos perdidos. Vou apenas usar os erros cometidos como alavanca para acelerar todo o processo e viver plenamente cada dia de vida que Deus me der. Cada minuto dessa dádiva maravilhosa que se chama vida.

.Mar.2001 

* O ANJO DE LUZ

Era uma cidade fria e cinzenta. E Luisa sentia um aperto no coração cada vez que tentava fazer algum contato com as pessoas. Na aparência, era tão fria quanto elas, que viviam apenas preocupadas com a necessidade de se agasalhar e aquecer. Sentia que havia algo esquisito com o lugar, uma espécie de encantamento, de maldição. Não sabia bem como chegara ali, já se passara tanto tempo...

Tudo era tão automatizado, que um dia parecia fundir-se no outro. Às vezes, ela não sabia se era invisível, ou se era um dos muitos andróides que existiam por ali. Os humanos, de tanto lidar com máquinas, muitas vezes não sabiam mais diferencia-las de seus iguais. E tornava-se impossível estabelecer um contato real com as pessoas, que há muito haviam desaprendido a sentir.

Luísa sentia-se terrivelmente só. Observava a paisagem e imaginava que um dia aquele lugar havia sido belo. Tentava descobrir o que mudara, como as coisas haviam se tornado tão frias e secas. Parecia haver uma capa, uma névoa cobrindo tudo e todos.

Forasteiros chegavam, às vezes, à cidade. Então, ouvia-se o som de risos e música. E Luísa achava que as coisas iam mudar. Mas eles ficavam apenas o tempo de conhecer o lugar, pegar alguns souvenirs e iam embora.

Um dia, notou algo diferente. Um homem, num banco da praça parecia observar todos os seus movimentos. Ela, de início, não lhe deu atenção, tão acostumada estava com as pessoas vazias do lugar. Mas ele a olhava, com um olhar atento e interessado. Ela o olhou, e ele sorriu. Um sorriso de raios de sol, que iluminou o dia cinzento. Ela parou, sem saber o que fazer, inebriada com a luz daquele sorriso. Ele caminhou até ela e, sem dizer nada, pegou uma das mochilas pesadas que ela levava. Demonstrava tanta segurança, que ela apenas o seguiu. E ele dirigiu-se à sua casa, como se soubesse exatamente quem ela era e o que viera fazer ali. Abriu a porta, deixou a mochila e, sem dizer palavra, apenas sorriu e foi embora. Ela ficou por um longo tempo parada, olhando-o da janela, meio sem saber se sonhara ou se fora real. Ele, certamente, não pertencia ao lugar.

Encontrou-o alguns dias depois e conversaram. Sua voz parecia música e seus olhos tinham brilho de estrelas. Ele parecia saber tanto da vida, dizia coisas que pareciam tocar seu coração em uma suave carícia. E, nesse dia, ela dormiu tranqüila como há muito não conseguia.       Vê-lo tornou-se uma agradável rotina. Eles andavam pelos campos, conversavam, riam. E ela a cada dia aprendia mais, descobrindo coisas que jamais pudera supor que existissem. As pessoas os olhavam com estranheza, com reservas, temendo a alegria que eles pareciam trazer para ameaçar a estrutura do lugar. Mas Luísa não se importava mais. Estava leve, feliz, livre como nunca havia sido. Seus dias não eram mais frios e cinzentos, pois ele os iluminava e aquecia com a luz de seu sorriso e o calor de sua voz.
  
Ele a levava a lugares que ela nem imaginara existir naquela cidade. Descobriu recantos, pássaros, animais, flores que nunca vira antes. Ele a levou a um lugar secreto: escondido entre as montanhas, havia um vale. Cheio de flores, riachos e pradarias. Uma estradinha singela levava até lá.

Ela parou no alto da colina e ficou olhando, extasiada. Era tudo tão diferente do lugar frio e cinzento de onde vinha!... Desceu lentamente, aproveitando a beleza da paisagem, a brisa suave, o sol aconchegante que lhe aquecia os ossos e o coração. Ela achou que ali era o paraíso!! Ele apenas riu, e disse que o vale sempre estivera ali, ela que nunca o procurara.

Banharam-se no riacho e depois deitaram-se na relva para descansar. Ela sentia-se a mais feliz das criaturas!! Fechou os olhos por um instante, inebriada de felicidade. Sentiu, de repente, um arrepio. E abriu os olhos, assustada. Estava só. Olhou em volta à procura do homem que mudara sua vida, mas não o encontrou em lugar nenhum. Achou que ela havia voltado à cidade e não quisera acorda-la.

Estranhou essa atitude, tão diferente de tudo o que ele fizera até então, mas apenas recolheu suas coisas e voltou para casa. No caminho, percebeu que o dia estava nublado. Uma leve chuva começava a cair sobre a cidade. Achou que esse era o motivo do arrepio que sentira. Apressou o passo para se aquecer, mas sem se preocupar muito, pois tinha sua própria fonte de aquecimento. Sabia que bastaria encontra-lo para o sol voltar a brilhar. Não sabia explicar como ele fazia isso. Nem sabia direito quem ele era, ou de onde vinha. Ele sempre falava com reticências...

Os dias passaram, mas não a chuva. Ela ficou presa em casa, sempre à espera que ele aparecesse, de repente, como fizera desde aquele primeiro dia. Mas nada aconteceu. Quando pode, enfim, sair, ela o procurou em todos os lugares onde costumavam ir. Em vão: ele não estava em lugar nenhum. Tudo estava vazio e a névoa parecia cobrir de forma ainda mais intensa a cidade fria e cinzenta. As ruas pareciam ainda mais cheias de andróides e pessoas vazias.

Luísa foi ficando a cada dia mais triste. Onde estaria o seu amigo misterioso? Procurou a caixa onde guardava os presentes que ele lhe dava: alegria, carinho, afeto, abraços, sorrisos, suaves melodias e ternura. Tudo havia desaparecido, como por encanto. Apenas cinzas enchiam a caixa. E algumas pétalas das rosas que ele lhe dera. Era o único indício que ali tinham estado guardados todos os seus tesouros...

Então, ela entendeu que ele se fora para sempre. E chorou um pranto de muita dor. Aos poucos, entendeu quem era esse homem misterioso: ele era um Anjo. O Anjo da Luz, enviado para aquecer os corações. Ele veio como um sonho, para lhe dar algum conforto e ensinar tanta coisa que desconhecia. Para lhe falar de vales, riachos, flores e brisa, de lua e estrelas, para trazer luz e calor aos seus dias vazios. Mas terminara sua missão. E ele seguira para aquecer outros corações, iluminar outras vidas.

A ela, Luísa, restaria apenas a lembrança do que tivera. A dúvida se fora apenas um sonho, ou uma doce realidade. A dor de uma partida repentina e sem despedidas. E o vazio dos dias que estavam por vir.

.Abr.2001

* A ARTE SOLITÁRIA

Escrever é uma arte solitária.

E Clarice diz que “Viver ultrapassa qualquer entendimento”. Escrever é o transbordamento dessa vida não entendida, do sentimento maior que o peito, da energia maior que o ser.

Escrever é doar-se, mostrar-se; É gritar de dor, de prazer, é dar e pedir socorro. Escrever é sempre se dar colo, mesmo que para quem lê, seja o abraço aconchegante e necessário. Impossível escrever para “os outros”: Escrever é sempre uma viagem interior e solitária. É buscar no fundo de si o que se tem de melhor e mais profundo, os fantasmas que assustam, os medos inconfessáveis... Se isso é útil para alguém, é conseqüência, jamais objetivo.

Poesia não está nos versos e sim na emoção que escorre por entre as letras. Poesia é sentimento que se concretiza em palavras e toca apenas as almas que vibram em freqüências afins.  Se a isso se juntar a melodia, pode ser um cântico de anjos ou um toque de guerra, mas atinge as fibras mais profundas de um ser.

Diz-me o que ouves, e eu te direi quem és...

Tudo isso é solitário. É auto-conhecimento, intimidade. É ato de dor ou prazer. É catarse consciente ou inconsciente. E o outro pode partilhar do conteúdo e da forma, jamais do significado. Pode reconhecer-se. Pode captar o jeito de ser de quem escreve, mas a essência que transborda para o papel permanece intocada até acontecer o milagre de uma alma gêmea ser encontrada.

Então, toda escrita torna-se supérflua. Pois que se fala de um coração a outro.

.Abri.2002

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

* HIBERNAÇÃO


Há momentos em que a gente precisa parar e retomar o fôlego. A gente precisa olhar pra dentro e ver que caminhos estamos trilhando. E aí, é preciso ter a coragem de encarar os erros e refazer os passos. Guardar o aprendizado e jogar fora as mágoas.

É preciso entender que a vida segue seu curso, por mais despedaçado que esteja o nosso coração, que envelhecemos e perdemos o brilho por mais jovial que seja o nosso espírito, que nosso tempo também passa, por mais que ainda não tenhamos concretizado nada do que sonhamos.

Nesse momento, é preciso, então, ter a sabedoria do velho elefante que se desgarra da manada e espera sozinho sua hora final. Sem mágoa nem melancolia. É preciso se recolher, se conhecer e saber a hora de deixar o grupo. Esse deixar pode nem ser definitivo. Pode ser apenas um momento de deserto. Mas é necessário. E importante.
É um hibernar de inverno para ressurgir na primavera.

É preciso um encontro interior para crescer. Algumas pessoas conseguem passar sem isso, aparentemente. Não eu. Neste momento, estou me recolhendo. Ë talvez mais uma atitude masoquista, um deixar por medo de ser deixada. Prefiro encarar como uma quarentena de cura, quando é necessário um isolamento, uma desintoxicação. Por quanto tempo, não sei.

Mas preciso reencontrar meu espaço interno, meus limites, o prazer de estar comigo, o silêncio. Talvez um teste. Comigo e com os outros. Andar com as próprias pernas. Deitar no próprio colo. Receber os próprios carinhos. E talvez fazer falta a alguém. Talvez ressaltar marcas que deixei e que foram deixadas em mim. Espírito de cigana, de andarilha, herança atávica de tribos nômades ancestrais.

Quíron, o hierofonte. O ser capaz de curar a todos sem jamais curar a si mesmo. Oxossi, o símbolo da insatisfação humana que procura nas matas um animal inexistente. O eterno voejar em torno a outrem, à procura do que não se consegue encontrar em si próprio. Abelha à cata de mel em todas as flores. Encontra-se o mel, mas não se pode reter o perfume.

Preciso encontrar em mim mesma cada uma das coisas que me faltam, que me faltaram a vida inteira. Antes que já não seja possível procurar mais nada. É em mim que preciso encontrar a paz. O afeto. O aconchego. O respeito. A consideração. A força. A beleza. A sensualidade. A importância. A prioridade absoluta. O amor. É em mim que preciso buscar a suficiência. É de mim que tem que vir o prazer orgástico de plenitude.

Quisera ser hermafrodita. Ter em mim a essência feminina e masculina. A auto-suficiência em sua expressão mais absoluta. Impossível, eu sei. Mas posso ter a suficiência da plenitude, da autonomia. Posso me bastar. Sem que isso resulte em amargura nem isolamento eremita. Nem que isso resulte em dureza fria.

O humano é só. Sabedoria lispectoriana. O humano é só, belo, forte. O mito do andrógino pode realizar-se em mim, em nós. Nós podemos nos abraçar a nós mesmos e sermos nossa própria cara metade. Nós podemos encontrar em nós mesmos nossa fonte de energia e prazer. E, talvez até transbordá-la para outros. Ou beber em outras fontes, eventualmente. Mas qual camelo em travessia de deserto, é imprescindível ter uma reserva suficiente de água para sobreviver.

            E água, é vida. É energia e prazer. É amor e movimento.

Quero ter a profundeza do mar, que abriga, mas se basta. Quero ter a leveza da cachoeira que resiste a um grande salto e de sua queda gera energia. Quero ter a liberdade do vento que sopra indiferente a quem é por ele tocado. Quero ter o calor do sol que brilha independentemente do que esteja exposto. Quero ter a luz da estrela que cintila apesar das nuvens impedirem que a vejamos.