Tudo era tão automatizado, que um dia parecia fundir-se no outro. Às vezes, ela não sabia se era invisível, ou se era um dos muitos andróides que existiam por ali. Os humanos, de tanto lidar com máquinas, muitas vezes não sabiam mais diferencia-las de seus iguais. E tornava-se impossível estabelecer um contato real com as pessoas, que há muito haviam desaprendido a sentir.
Luísa sentia-se terrivelmente só. Observava a paisagem e imaginava que um dia aquele lugar havia sido belo. Tentava descobrir o que mudara, como as coisas haviam se tornado tão frias e secas. Parecia haver uma capa, uma névoa cobrindo tudo e todos.
Forasteiros chegavam, às vezes, à cidade. Então, ouvia-se o som de risos e música. E Luísa achava que as coisas iam mudar. Mas eles ficavam apenas o tempo de conhecer o lugar, pegar alguns souvenirs e iam embora.
Um dia, notou algo diferente. Um homem, num banco da praça parecia observar todos os seus movimentos. Ela, de início, não lhe deu atenção, tão acostumada estava com as pessoas vazias do lugar. Mas ele a olhava, com um olhar atento e interessado. Ela o olhou, e ele sorriu. Um sorriso de raios de sol, que iluminou o dia cinzento. Ela parou, sem saber o que fazer, inebriada com a luz daquele sorriso. Ele caminhou até ela e, sem dizer nada, pegou uma das mochilas pesadas que ela levava. Demonstrava tanta segurança, que ela apenas o seguiu. E ele dirigiu-se à sua casa, como se soubesse exatamente quem ela era e o que viera fazer ali. Abriu a porta, deixou a mochila e, sem dizer palavra, apenas sorriu e foi embora. Ela ficou por um longo tempo parada, olhando-o da janela, meio sem saber se sonhara ou se fora real. Ele, certamente, não pertencia ao lugar.
Encontrou-o alguns dias depois e conversaram. Sua voz parecia música e seus olhos tinham brilho de estrelas. Ele parecia saber tanto da vida, dizia coisas que pareciam tocar seu coração em uma suave carícia. E, nesse dia, ela dormiu tranqüila como há muito não conseguia. Vê-lo tornou-se uma agradável rotina. Eles andavam pelos campos, conversavam, riam. E ela a cada dia aprendia mais, descobrindo coisas que jamais pudera supor que existissem. As pessoas os olhavam com estranheza, com reservas, temendo a alegria que eles pareciam trazer para ameaçar a estrutura do lugar. Mas Luísa não se importava mais. Estava leve, feliz, livre como nunca havia sido. Seus dias não eram mais frios e cinzentos, pois ele os iluminava e aquecia com a luz de seu sorriso e o calor de sua voz.
Ela parou no alto da colina e ficou olhando, extasiada. Era tudo tão diferente do lugar frio e cinzento de onde vinha!... Desceu lentamente, aproveitando a beleza da paisagem, a brisa suave, o sol aconchegante que lhe aquecia os ossos e o coração. Ela achou que ali era o paraíso!! Ele apenas riu, e disse que o vale sempre estivera ali, ela que nunca o procurara.
Banharam-se no riacho e depois deitaram-se na relva para descansar. Ela sentia-se a mais feliz das criaturas!! Fechou os olhos por um instante, inebriada de felicidade. Sentiu, de repente, um arrepio. E abriu os olhos, assustada. Estava só. Olhou em volta à procura do homem que mudara sua vida, mas não o encontrou em lugar nenhum. Achou que ela havia voltado à cidade e não quisera acorda-la.
Estranhou essa atitude, tão diferente de tudo o que ele fizera até então, mas apenas recolheu suas coisas e voltou para casa. No caminho, percebeu que o dia estava nublado. Uma leve chuva começava a cair sobre a cidade. Achou que esse era o motivo do arrepio que sentira. Apressou o passo para se aquecer, mas sem se preocupar muito, pois tinha sua própria fonte de aquecimento. Sabia que bastaria encontra-lo para o sol voltar a brilhar. Não sabia explicar como ele fazia isso. Nem sabia direito quem ele era, ou de onde vinha. Ele sempre falava com reticências...
Os dias passaram, mas não a chuva. Ela ficou presa em casa, sempre à espera que ele aparecesse, de repente, como fizera desde aquele primeiro dia. Mas nada aconteceu. Quando pode, enfim, sair, ela o procurou em todos os lugares onde costumavam ir. Em vão: ele não estava em lugar nenhum. Tudo estava vazio e a névoa parecia cobrir de forma ainda mais intensa a cidade fria e cinzenta. As ruas pareciam ainda mais cheias de andróides e pessoas vazias.
Luísa foi ficando a cada dia mais triste. Onde estaria o seu amigo misterioso? Procurou a caixa onde guardava os presentes que ele lhe dava: alegria, carinho, afeto, abraços, sorrisos, suaves melodias e ternura. Tudo havia desaparecido, como por encanto. Apenas cinzas enchiam a caixa. E algumas pétalas das rosas que ele lhe dera. Era o único indício que ali tinham estado guardados todos os seus tesouros...
Então, ela entendeu que ele se fora para sempre. E chorou um pranto de muita dor. Aos poucos, entendeu quem era esse homem misterioso: ele era um Anjo. O Anjo da Luz, enviado para aquecer os corações. Ele veio como um sonho, para lhe dar algum conforto e ensinar tanta coisa que desconhecia. Para lhe falar de vales, riachos, flores e brisa, de lua e estrelas, para trazer luz e calor aos seus dias vazios. Mas terminara sua missão. E ele seguira para aquecer outros corações, iluminar outras vidas.
A ela, Luísa, restaria apenas a lembrança do que tivera. A dúvida se fora apenas um sonho, ou uma doce realidade. A dor de uma partida repentina e sem despedidas. E o vazio dos dias que estavam por vir.
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