quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

* POR-DO-SOL

Nenhuma hora do dia exprime tanta beleza.
Nenhuma é tão nostálgica, também.
E esta foto resume tudo isso, pois é bastante antiga e foi tirada num momento de intensa alegria, com um grupo de grandes amigos. Que, no entanto, se espalharam pela vida e hoje quase não se vêem...

Mas, da mesma forma que na foto, ficou a beleza dos momentos que passamos juntos. E se hoje os caminhos se distanciaram, ficaram as marcas da convivência, nem que seja na lembrança eventual de cada um.

Hoje estou nostálgica.
Com saudades de mim. De um tempo em que eu acreditava firmemente na beleza, nas relações humanas, nos afetos. Eu sou colecionadora de afetos. E na minha enorme galeria guardo com carinho cada uma das pessoas que encontrei ao longo do caminho. Para cada um, um lugar de destaque, com direito a flores de sorrisos e fitas de sinceridade.

Os amigos... Muitos se foram, perdidos pra vida ou pra morte. Outros, desbotaram com o tempo, porque o material de que eram feitos era sintético. Outros, simplesmente abandonaram o posto. Mas ainda assim, tenho para cada um dos que se foram um quadro na parede da memória. E se as luzes que davam brilho aos meus olhos foram quebradas pelas pedras da insinceridade ou da ofensa recebida, restam as flores do MEU afeto que foram verdadeiras.

Procuro esquecer que nem sempre o afeto foi recíproco e pensar apenas nos bons momentos que vivi. Procuro pensar que se o que fiz de bom foi ignorado ou desvalorizado, não fui eu que perdi, pois dei o que tinha de melhor. Procuro iluminar as paredes da memória com as luzes de sorrisos e o calor de abraços recebidos.

E lembrar que o nostálgico por do sol muitas vezes dá lugar à lua cheia que prateia os caminhos. E que, mesmo depois da noite mais escura, nasce um novo dia, aquecido pelo mesmo sol que aqueceu o primeiro dia do planeta.

Sobretudo, jamais esqueço que em meu peito bate um coração capaz de se maravilhar a cada dia com a beleza e o amor.

*01.Jul.2005

* DE RÉDEAS SOLTAS

Deixa-me perder as rédeas
E desabar em teus abismos
(mais profundos),
E subir contigo
Aos picos mais altos
Do mais recôndito lugar
Do EU verdadeiro,
do teu EU mais sincero.
Deixa-me perder-me ness
e labirinto


De emoções que me transmites
E me achar no sussurro de tua voz,
ou nas asas do teu beijo mais doce.
Deixa-me percorrer contigo
Todos os teus caminhos,
E ser para ti
A pedra que falta,
A fonte que transborda,
A sombra,
A luz,
A água,
A vida...

*1982

* HOMENAGEM A ADELSON DORNELAS

Taí Adelson, junto com DaPaz, no dia em que gravou sua primeira cena desse projeto que pretendeu ser tão grandioso... A gente quase não se conhecia. Rápidos papos em encontros casuais, em meio a espetáculos e eventos. E de repente ... lá estava Adelson fazendo parte de nosso elenco. Alegrando um dia tenso (o primeiro dia de gravação) com sua tranquilidade, seu vozeirão, sua energia tranquila e seu talento...

Como foi bom poder trabalhar com uma pessoa assim, tão profissional, tão simples, tão doce! E apesar de não termos podido manter um contato mais próximo, ficaram marcas desse seu jeito tranquilo. E, como sempre, a idéia de que ainda poderíamos sentar e bater longos papos, a certeza de que ele faria brilhar aquela personagem que, apesar de uma participação pequena, tinha uma importância tão grande na trama...

E a espera pela chegada do momento de vê-lo gravar as outras cenas de sua personagem, a brincadeira a respeito dessa espera, a ansiedade que ele a custo controlava...

Esse dia nunca chegou. Nunca mais vai chegar.

Vi Adelson pela última vez há 7 meses, quando circusntâncias alheias à minha vontade me fizeram abandonar o projeto. Na ocasião, me tocou o coração vê-lo com os olhos cheios de lágrimas lamentando minha saída. Sua solidariedade com a minha dor me comoveu. E me fez admirá-lo ainda mais. E renovar a vontade de conviver mais com essa pessoa que, mesmo um pouco distante, se mostrava tão próximo. Mas o tempo necessário para a cicatrização de minhas feridas adiaram mais uma vez esse propósito. Nos falamos por telefone algumas vezes, fizemos alguns planos de futuros trabalhos... Mas nunca mais nos encontramos.

Agora, a violência urbana tirou-lhe tragicamente a vida. E senti uma enorme nostalgia. Uma tristeza imensa pelo amigo que apenas se anunciava e pela pessoa linda que transparecia nos mais breves contatos.

Uma tristeza pelo vazio que ele deixa nos palcos, nas telas, na vida dos que tiveram o privilégio de conhecê-lo e conviver com esse ser humano especial. Tristeza pelo vazio que sua luz vai deixar nesse mundo conturbado.

Mas, pelo pouco que conheci de Adelson, tristeza não era uma palavra que deveria ser ligada a sua pessoa. Pela alegria que ele irradiava, acredito que ele prefereria ser lembrado por sua vida, sua doçura, sua simplicidade. E, graças a Deus, estrelas não morrem, apenas mudam de lugar e vão brilhar em outros céus. E, como o grande artista que foi, ele nos deixou a memória de seu talento, de seus trabalhos, da alegria que proporcionou a seu público e seus amigos.

Vai em paz, Adelson. Vai levar tua alegria a outras platéias. E aqui a gente guarda o eco de teu vozeirão, de teu talento e tua amizade...

Muita luz...

*29.Out.2005

* AMIGOS

Coisas ditas ao acaso,
Tradução de sentimentos.
Reflexos...
Mundos construídos aos poucos,
Mundos que ruíram ao vento,
Mundos coloridos
Que nos preenchem a vida.

Pedaços da gente
Que se vão ao longe,
Pedaços de gente
Que nos marca,
Que passa e se vai,
Mas que fica na gente
Nas coisas que diz,
Nas coisas que faz...

*1978

* RECANTO SECRETO

Viver a vida pelo avesso,
Sentir a seiva que corre
Por dentro da pele, dos olhos, da alma
Saber que existe um átrio
Verde e iluminado
No centro de si mesma,
Onde só uns poucos iniciados têm acesso.
Deixar apenas a porta entreaberta
E vazar por frestas essa luz
Que alguns poucos entreverão dourada
E a muitos ofuscará
Pelo inusitado e a intensidade.
Guardar como um tesouro esse recanto
E ali deixar correr em liberdade
A alma
Em toda a sua cor e plenitude.

*2002

* SE EU FOSSE ARTISTA

Se eu fosse artista
Te diria em versos
Todo o sentimento
Do meu coração
Acharia o tom
Cantaria as modas
Te faria o tema
Da minha canção.
E esse tormento
Que me aperta o peito
E vaza nos olhos
Eu espantaria
Com a minha cantoria.

Quem dera eu fosse capaz
De traduzir o bem
Que esse amor me faz
De espantar os medos
E arrancar o mal
Todinho pela raiz
De ser tua amada
E te fazer feliz!

*1990

* UM ANJO DORME

Um anjo dorme.
E ao dormir esquece que é um anjo.
Apenas o homem permanece
E no sono esquece que é de ferro.
Deixa-se embalar no sonho
E transparece
Em cada gesto o seu carinho.
Os movimentos são suaves
E, desprovidos da tensão e da censura,
Enlaça o ser amado na cintura
E esquece a decisão que não devia.
No sono,
Apenas o sentimento se acorda
E o inconsciente manda e transporta
Para um mundo onde o amor reina,
Soberano.
Braços e pernas se enroscam num abraço
E apesar de continuar adormecidos
Dois corações voam, libertados,
Deixando que o amor dê mais um passo.

*Abril.2002