Questionar a vida, o comportamento, o relacionamento sempre foi uma sua característica forte. Esse ser que só agora começava a despir as armaduras de guerreira que já faziam parte de seu próprio corpo. Armaduras tão antigas quanto conseguia se lembrar. E que a protegiam tanto e tão bem que quase a separavam do mundo belo e hostil lá fora. Agora, começava a questionar todo esse questionamento, a tentar tirar o que ainda restava daquelas peças de guerra que compunham seu dia a dia.
Dava-se conta que vestira a armadura ainda tão jovem que crescera dentro dela e ela se amoldara a seu corpo. Verdade que ela a protegera de frio e de espinhos. Mas também a separara da maciez do contato da relva e da cor saudável dada pelo sol. E a impedira de aprender a manejar objetos mais delicados que a lança e a espada, ou de praticar esportes mais suaves. Apenas sabia lutar e manejar as armas. Montar e cavalgar solitária era a expressão de liberdade dessa guerreira. E então se tornava parte de seu cavalo.
Um dia, caiu. E na queda, perdeu o elmo. Assustou-se com a claridade forte que lhe feriu os olhos. Sentiu-se desprotegida ao contato da brisa fresca a tocar-lhe o rosto. Levou muito tempo até realmente entender e apreciar o que estava acontecendo. E se deu conta que aquele toque e o calor do sol lhe davam prazer.
Quis tocar o próprio rosto, mas o peso da mão enluvada apenas conseguiu feri-la. Foi quando deu-se conta da couraça que a cobria. E também do quanto estava presa ali dentro, do quanto sufocava.
E chorou; de impotência diante das belezas que não podia tocar e de revolta contra uma armadura que não queria mais e da qual não conseguia, não sabia livrar-se. Passou a ser apenas uma estranha: não havia espaço para ela nesse mundo de cores e texturas que descobria e perdera o lugar nas fileiras cinzentas e rígidas de sua armada.
Conheceu o inferno da busca, da solidão e do desamparo. Vagou sem rumo pelos prados até que alguém ajudou-a a se livrar das pesadas luvas de guerra. E ela descobriu o prazer de sentir a textura e a forma das coisas, o prazer de tocar. Com mãos livres, podia sentir o mundo!
Bem cedo descobriu que isso era muito pouco. Era quase nada. E aprendeu a tristeza. Mas aprendeu também a usar os dons que descobrira, o milagre do toque. Assim, foi pouco a pouco se desvencilhando das placas de ferro que cobriam seu corpo. Algumas caíam mais fácil, outras exigiam esforço e até alguma dor. Nem sempre conseguia livrar-se delas sozinha e, às vezes, quem a ajudava também se feria. E partia. E, então, ela se sentia triste e só. Muitas vezes se sentia perdida e tentava voltar ao velho abrigo, mas seu corpo não mais aceitava o peso da armadura. E não lhe restava alternativa a não ser prosseguir.
Não tinha idéia do resultado final, do que existia sob a couraça. Descobria aos poucos, à medida em que se desnudava. Tentou usar as placas de metal como espelho, mas só obtinha imagens distorcidas. E as pessoas que encontrava eram tão contraditórias... Sem falar que era estranho perguntar a alguém: “como é que eu sou?”. Não. Precisava aprender de si sozinha. Como também precisava aprender o mundo, as cores, as formas, os cheiros, as vidas. E ela que sempre pensara que isso se nasce sabendo...
Vagou muito. Entrou em muitas ruas que não levavam a lugar algum. Confundiu muitas estátuas com pessoas e assustou-se por descobri-las imóveis e frias. Às vezes, por hábito e por medo, voltava a lutar. E se feria muito, pois que agora estava desprotegida. E, por falta de hábito, nem sempre compreendia os curativos que por amor lhe eram feitos. Por isso, continuava a sentir-se estranha e só.
Um dia, viu-se nas águas de um regato. E o sol iluminou-lhe o olhar, que ela descobriu belo. Tão belo que não acreditou ser o seu próprio. E olhou de novo. E entrou fundo nas águas, que se abriram para recebê-la num abraço de amor. Com as águas, as últimas placas de sua armadura amoleceram e caíram. Deu-se conta, estupefata e maravilhada, de seu próprio corpo, de suas próprias formas. Deu-se conta do prazer que a água fresca lhe trazia e adorou se deixar secar ao sol, sobre a relva, como a mais primitiva das criaturas!... Sentir o calor dos raios do sol em seu corpo nu, deixar os perfumes do campo invadirem suas narinas e sorrir de prazer com as carícias do vento era uma descoberta nova para esse ser que passara de forte a frágil. E que só agora entrevia o equilíbrio, que só agora vislumbrava a promessa de plenitude como algo real e possível.
E ao se permitir esse contato pleno com o que havia demais primitivo, animal e puro em si mesma, ao se despir por completo de questionamentos e armaduras, é que esse ser se viu inteiro e belo — nem forte , nem frágil, apenas um ser inteiro.
E pode, enfim, conhecer seu próprio nome:
mulher.
*Jul.1988