quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

* RECANTO SECRETO

Viver a vida pelo avesso,
Sentir a seiva que corre
Por dentro da pele, dos olhos, da alma
Saber que existe um átrio
Verde e iluminado
No centro de si mesma,
Onde só uns poucos iniciados têm acesso.
Deixar apenas a porta entreaberta
E vazar por frestas essa luz
Que alguns poucos entreverão dourada
E a muitos ofuscará
Pelo inusitado e a intensidade.
Guardar como um tesouro esse recanto
E ali deixar correr em liberdade
A alma
Em toda a sua cor e plenitude.

*2002

* SE EU FOSSE ARTISTA

Se eu fosse artista
Te diria em versos
Todo o sentimento
Do meu coração
Acharia o tom
Cantaria as modas
Te faria o tema
Da minha canção.
E esse tormento
Que me aperta o peito
E vaza nos olhos
Eu espantaria
Com a minha cantoria.

Quem dera eu fosse capaz
De traduzir o bem
Que esse amor me faz
De espantar os medos
E arrancar o mal
Todinho pela raiz
De ser tua amada
E te fazer feliz!

*1990

* UM ANJO DORME

Um anjo dorme.
E ao dormir esquece que é um anjo.
Apenas o homem permanece
E no sono esquece que é de ferro.
Deixa-se embalar no sonho
E transparece
Em cada gesto o seu carinho.
Os movimentos são suaves
E, desprovidos da tensão e da censura,
Enlaça o ser amado na cintura
E esquece a decisão que não devia.
No sono,
Apenas o sentimento se acorda
E o inconsciente manda e transporta
Para um mundo onde o amor reina,
Soberano.
Braços e pernas se enroscam num abraço
E apesar de continuar adormecidos
Dois corações voam, libertados,
Deixando que o amor dê mais um passo.

*Abril.2002

* LARVA

Larva.
Casulo.
Bicho em mutação.
Nada mais somos do que isso:
Lagarta que se fecha e se transmuta
E talvez um dia vire mariposa
Ou, quem sabe, a mais linda borboleta.

*Abril.2002

* PORQUE FAÇO POESIA

Faço poesia
Não porque eu seja poeta,
Mas porque meus versos dizem
O que o coração sente
E os lábios não querem ousar.
Faço poesia
Só para cantar a vida
Num tom que a voz não alcança
E nem os ouvidos querem escutar.
Faço poesia
Para talvez atingir a alma
De um distante-próximo
Que não ouso encarar.
Faço poesia
Para me dar inteira
Ao mundo, à vida, a ti
Que talvez nem vejas
Nada do quanto te quero mostrar.

*Out.1984

* NASCIMENTO DE VÊNUS

Questionar a vida, o comportamento, o relacionamento sempre foi uma sua característica forte. Esse ser que só agora começava a despir as armaduras de guerreira que já faziam parte de seu próprio corpo. Armaduras tão antigas quanto conseguia se lembrar. E que a protegiam tanto e tão bem que quase a separavam do mundo belo e hostil lá fora. Agora, começava a questionar todo esse questionamento, a tentar tirar o que ainda restava daquelas peças de guerra que compunham seu dia a dia.

 Dava-se conta que vestira a armadura ainda tão jovem que crescera dentro dela e ela se amoldara a seu corpo. Verdade que ela a protegera de frio e de espinhos. Mas também a separara da maciez do contato da relva e da cor saudável dada pelo sol. E a impedira de aprender a manejar objetos mais delicados que a lança e a espada, ou de praticar esportes mais suaves. Apenas sabia lutar e manejar as armas. Montar e cavalgar solitária era a expressão de liberdade dessa guerreira. E então se tornava parte de seu cavalo.

Um dia, caiu. E na queda, perdeu o elmo. Assustou-se com a claridade forte que lhe feriu os olhos. Sentiu-se desprotegida ao contato da brisa fresca a tocar-lhe o rosto. Levou muito tempo até realmente entender e apreciar o que estava acontecendo. E se deu conta que aquele toque e o calor do sol lhe davam prazer.

Quis tocar o próprio rosto, mas o peso da mão enluvada apenas conseguiu feri-la. Foi quando deu-se conta da couraça que a cobria. E também do quanto estava presa ali dentro, do quanto sufocava.
 
E chorou; de impotência diante das belezas que não podia tocar e de revolta contra uma armadura que não queria mais e da qual não conseguia, não sabia livrar-se. Passou a ser apenas uma estranha: não havia espaço para ela nesse mundo de cores e texturas que descobria e perdera o lugar nas fileiras cinzentas e rígidas de sua armada.

Conheceu o inferno da busca, da solidão e do desamparo. Vagou sem rumo pelos prados até que alguém ajudou-a a se livrar das pesadas luvas de guerra. E ela descobriu o prazer de sentir a textura e a forma das coisas, o prazer de tocar. Com mãos livres, podia sentir o mundo!

Bem cedo descobriu que isso era muito pouco. Era quase nada. E aprendeu a tristeza. Mas aprendeu também a usar os dons que descobrira, o milagre do toque. Assim, foi pouco a pouco se desvencilhando das placas de ferro que cobriam seu corpo. Algumas caíam mais fácil, outras exigiam esforço e até alguma dor. Nem sempre conseguia livrar-se delas sozinha e, às vezes, quem a ajudava também se feria. E partia. E, então, ela se sentia triste e só. Muitas vezes se sentia perdida e tentava voltar ao velho abrigo, mas seu corpo não mais aceitava o peso da armadura. E não lhe restava alternativa a não ser prosseguir.

Não tinha idéia do resultado final, do que existia sob a couraça. Descobria aos poucos, à medida em que se desnudava. Tentou usar as placas de metal como espelho, mas só obtinha imagens distorcidas. E as pessoas que encontrava eram tão contraditórias... Sem falar que era estranho perguntar a alguém: “como é que eu sou?”. Não. Precisava aprender de si sozinha. Como também precisava aprender o mundo, as cores, as formas, os cheiros, as vidas. E ela que sempre pensara que isso se nasce sabendo...

Vagou muito. Entrou em muitas ruas que não levavam a lugar algum. Confundiu muitas estátuas com pessoas e assustou-se por descobri-las imóveis e frias. Às vezes, por hábito e por medo, voltava a lutar. E se feria muito, pois que agora estava desprotegida. E, por falta de hábito, nem sempre compreendia os curativos que por amor lhe eram feitos. Por isso, continuava a sentir-se estranha e só.

Um dia, viu-se nas águas de um regato. E o sol iluminou-lhe o olhar, que ela descobriu belo. Tão belo que não acreditou ser o seu próprio. E olhou de novo. E entrou fundo nas águas, que se abriram para recebê-la num abraço de amor. Com as águas, as últimas placas de sua armadura amoleceram e caíram. Deu-se conta, estupefata e maravilhada, de seu próprio corpo, de suas próprias formas. Deu-se conta do prazer que a água fresca lhe trazia e adorou se deixar secar ao sol, sobre a relva, como a mais primitiva das criaturas!... Sentir o calor dos raios do sol em seu corpo nu, deixar os perfumes do campo invadirem suas narinas e sorrir de prazer com as carícias do vento era uma descoberta nova para esse ser que passara de forte a frágil. E que só agora entrevia o equilíbrio, que só agora vislumbrava a promessa de plenitude como algo real e possível.

E ao se permitir esse contato pleno com o que havia demais primitivo, animal e puro em si mesma, ao se despir por completo de questionamentos e armaduras, é que esse ser se viu inteiro e belo — nem forte , nem frágil, apenas um ser inteiro.

E pode, enfim, conhecer seu próprio nome:
                      mulher.
*Jul.1988

* SONO


É estranho ver dormir a quem se ama.
Despido das tensões e da censura
Esquece num canto do quarto a personna
E deixa livre sua emoção mais pura.

Sua alma ali se expõe, em liberdade
E em seu rosto transparece a calma
Ou a ansiedade.
Não tem como vestir a armadura
Não há espaço para regra ou falsidade:
É ele, apenas ele, por inteiro.
E a realidade desaparece por encanto
Deixando apenas espaço para o sonho
E movimentos suaves ou agitados
Vão traduzir felicidade ou desventura
Independente de ser observado.

É doce ver dormir a quem se ama.
Ao sono abandonado, qual criança,
O homem forte volta a ser menino,
E instiga em quem olha um só desejo:
O de pegar no colo e junto ao peito
Acalentar este ser tão desarmado.

E ao ver sonhar tranqüilo a quem eu amo
Em mim desperta um sonho desvairado
O de ser eu a fonte do sorriso
Que ilumina o rosto do meu homem/anjo,
Tão amado.