quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

* LARVA

Larva.
Casulo.
Bicho em mutação.
Nada mais somos do que isso:
Lagarta que se fecha e se transmuta
E talvez um dia vire mariposa
Ou, quem sabe, a mais linda borboleta.

*Abril.2002

* PORQUE FAÇO POESIA

Faço poesia
Não porque eu seja poeta,
Mas porque meus versos dizem
O que o coração sente
E os lábios não querem ousar.
Faço poesia
Só para cantar a vida
Num tom que a voz não alcança
E nem os ouvidos querem escutar.
Faço poesia
Para talvez atingir a alma
De um distante-próximo
Que não ouso encarar.
Faço poesia
Para me dar inteira
Ao mundo, à vida, a ti
Que talvez nem vejas
Nada do quanto te quero mostrar.

*Out.1984

* NASCIMENTO DE VÊNUS

Questionar a vida, o comportamento, o relacionamento sempre foi uma sua característica forte. Esse ser que só agora começava a despir as armaduras de guerreira que já faziam parte de seu próprio corpo. Armaduras tão antigas quanto conseguia se lembrar. E que a protegiam tanto e tão bem que quase a separavam do mundo belo e hostil lá fora. Agora, começava a questionar todo esse questionamento, a tentar tirar o que ainda restava daquelas peças de guerra que compunham seu dia a dia.

 Dava-se conta que vestira a armadura ainda tão jovem que crescera dentro dela e ela se amoldara a seu corpo. Verdade que ela a protegera de frio e de espinhos. Mas também a separara da maciez do contato da relva e da cor saudável dada pelo sol. E a impedira de aprender a manejar objetos mais delicados que a lança e a espada, ou de praticar esportes mais suaves. Apenas sabia lutar e manejar as armas. Montar e cavalgar solitária era a expressão de liberdade dessa guerreira. E então se tornava parte de seu cavalo.

Um dia, caiu. E na queda, perdeu o elmo. Assustou-se com a claridade forte que lhe feriu os olhos. Sentiu-se desprotegida ao contato da brisa fresca a tocar-lhe o rosto. Levou muito tempo até realmente entender e apreciar o que estava acontecendo. E se deu conta que aquele toque e o calor do sol lhe davam prazer.

Quis tocar o próprio rosto, mas o peso da mão enluvada apenas conseguiu feri-la. Foi quando deu-se conta da couraça que a cobria. E também do quanto estava presa ali dentro, do quanto sufocava.
 
E chorou; de impotência diante das belezas que não podia tocar e de revolta contra uma armadura que não queria mais e da qual não conseguia, não sabia livrar-se. Passou a ser apenas uma estranha: não havia espaço para ela nesse mundo de cores e texturas que descobria e perdera o lugar nas fileiras cinzentas e rígidas de sua armada.

Conheceu o inferno da busca, da solidão e do desamparo. Vagou sem rumo pelos prados até que alguém ajudou-a a se livrar das pesadas luvas de guerra. E ela descobriu o prazer de sentir a textura e a forma das coisas, o prazer de tocar. Com mãos livres, podia sentir o mundo!

Bem cedo descobriu que isso era muito pouco. Era quase nada. E aprendeu a tristeza. Mas aprendeu também a usar os dons que descobrira, o milagre do toque. Assim, foi pouco a pouco se desvencilhando das placas de ferro que cobriam seu corpo. Algumas caíam mais fácil, outras exigiam esforço e até alguma dor. Nem sempre conseguia livrar-se delas sozinha e, às vezes, quem a ajudava também se feria. E partia. E, então, ela se sentia triste e só. Muitas vezes se sentia perdida e tentava voltar ao velho abrigo, mas seu corpo não mais aceitava o peso da armadura. E não lhe restava alternativa a não ser prosseguir.

Não tinha idéia do resultado final, do que existia sob a couraça. Descobria aos poucos, à medida em que se desnudava. Tentou usar as placas de metal como espelho, mas só obtinha imagens distorcidas. E as pessoas que encontrava eram tão contraditórias... Sem falar que era estranho perguntar a alguém: “como é que eu sou?”. Não. Precisava aprender de si sozinha. Como também precisava aprender o mundo, as cores, as formas, os cheiros, as vidas. E ela que sempre pensara que isso se nasce sabendo...

Vagou muito. Entrou em muitas ruas que não levavam a lugar algum. Confundiu muitas estátuas com pessoas e assustou-se por descobri-las imóveis e frias. Às vezes, por hábito e por medo, voltava a lutar. E se feria muito, pois que agora estava desprotegida. E, por falta de hábito, nem sempre compreendia os curativos que por amor lhe eram feitos. Por isso, continuava a sentir-se estranha e só.

Um dia, viu-se nas águas de um regato. E o sol iluminou-lhe o olhar, que ela descobriu belo. Tão belo que não acreditou ser o seu próprio. E olhou de novo. E entrou fundo nas águas, que se abriram para recebê-la num abraço de amor. Com as águas, as últimas placas de sua armadura amoleceram e caíram. Deu-se conta, estupefata e maravilhada, de seu próprio corpo, de suas próprias formas. Deu-se conta do prazer que a água fresca lhe trazia e adorou se deixar secar ao sol, sobre a relva, como a mais primitiva das criaturas!... Sentir o calor dos raios do sol em seu corpo nu, deixar os perfumes do campo invadirem suas narinas e sorrir de prazer com as carícias do vento era uma descoberta nova para esse ser que passara de forte a frágil. E que só agora entrevia o equilíbrio, que só agora vislumbrava a promessa de plenitude como algo real e possível.

E ao se permitir esse contato pleno com o que havia demais primitivo, animal e puro em si mesma, ao se despir por completo de questionamentos e armaduras, é que esse ser se viu inteiro e belo — nem forte , nem frágil, apenas um ser inteiro.

E pode, enfim, conhecer seu próprio nome:
                      mulher.
*Jul.1988

* SONO


É estranho ver dormir a quem se ama.
Despido das tensões e da censura
Esquece num canto do quarto a personna
E deixa livre sua emoção mais pura.

Sua alma ali se expõe, em liberdade
E em seu rosto transparece a calma
Ou a ansiedade.
Não tem como vestir a armadura
Não há espaço para regra ou falsidade:
É ele, apenas ele, por inteiro.
E a realidade desaparece por encanto
Deixando apenas espaço para o sonho
E movimentos suaves ou agitados
Vão traduzir felicidade ou desventura
Independente de ser observado.

É doce ver dormir a quem se ama.
Ao sono abandonado, qual criança,
O homem forte volta a ser menino,
E instiga em quem olha um só desejo:
O de pegar no colo e junto ao peito
Acalentar este ser tão desarmado.

E ao ver sonhar tranqüilo a quem eu amo
Em mim desperta um sonho desvairado
O de ser eu a fonte do sorriso
Que ilumina o rosto do meu homem/anjo,
Tão amado.
 

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

* TEATRO FECHADO


C’est fini
Caiu o pano e terminou o espetáculo. O público se retirou e o teatro está vazio. Me vejo sozinha em um palco quase às escuras. Sento-me no meio do palco e olho em torno.

Não há mais nada.
O cenário foi desmontado. Há apenas um enorme espaço vazio à minha volta. Nem mesmo o som dos aplausos ecoa mais. Foi a última apresentação do último dia desse teatro.

Acabou. Para sempre, acabou.
Não mais haverá risos no camarim. Não mais os gritos de alegria na conclusão de uma cena. Não mais o eco das vozes dos artistas. Não mais a energia e a emoção das personagens. Não mais o sonho. Acabou o espetáculo. Desceu o pano.

Deveria levantar e pegar minhas coisas pra ir embora. Mas minhas pernas se recusam a obedecer. Me sinto presa. Paralisada. Sinto ainda no corpo o calor do figurino que usei. E no rosto existem vestígios da maquiagem...

Fui tão bonita!... Pelo tempo que durou o espetáculo fui princesa! E fui querida, fui amada, aplaudida!! Em minhas mãos sinto ainda o calor das mãos do meu parceiro. E no meu corpo a marca de seus braços. Diante dos meus olhos brincam os seus sorrisos e o brilho de seus olhos acende o caminho em cena. Ecoam em meus ouvidos as suas falas que me conduziam por entre os objetos do cenário...

Levanto a cabeça e esboço um sorriso...
Quem sabe foi engano. O teatro não será fechado e haverá ainda uma outra sessão?...

Mas... É inútil. Continua tudo vazio e às escuras como antes. Apenas o frio se intensifica. Foi ilusão. Não há mais nada. Olho pela última vez o lugar onde o sonho ganhou vida e fui tão feliz... está vazio. Definitivamente vazio. Acabou, mesmo. O teatro será fechado.

Sinto as lágrimas rolarem no meu rosto e pingarem lentamente em meu peito. Em cada uma há uma história, há um momento que marcou. E cada uma deixa um sulco de tristeza em minha alma que, talvez, se eu tiver sorte, não seja tão perceptível em minha pele...

Respiro fundo.
Olho em volta uma ultima vez e num esforço supremo me levanto.
Saio calada do centro do palco. Apanho no caminho um adereço esquecido num canto. Guardo na bolsa uma folha do texto... Apago a luz.

Fecho a porta, sem olhar para trás.
Lá fora a escuridão da noite e o frio da madrugada me esperam. Mas, como todo artista, guardo em mim a centelha da esperança. E ainda rezo para que nasça o sol de um novo dia.


*Out.2005

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Cinema, Aspirinas e Urubus

Rating:★★★★★
Category:Movies
Genre: Drama
Filme candidato ao Oscar 2007, na categoria Filme Estrangeiro.
Mariavilhoso!!!! Fico orgulhosa de ver um filme pernambucano representando o Brasil. Roteiro e direção de Marcelo Gomes, Produção da Rec Produções, Maquiagem de Marcos Freire. Atores, técnica... tudo da gente!!!
Parabéns pra João Junior da Rec. Parabéns pra Marcos Freire, mais jovem maquiador a ter um filme indicado ao Oscar e meu grande e querido amigo pessoal...`
É um filme imperdível. Pela fotografia, pelo enredo, pela produção como um todo.
E por ser pernambucano, inclusive.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

* IMAGENS DO TEMPO


De quem são esses olhos
Que me fitam curiosos cada vez que me vejo
No espelho?
Eu uma e eu sou tantas, tão diversas...
São imagens que se fundem, superpostas,
E tantas vezes se confundem
E rodopiam misturando os seus traços
Num compasso incessante de mudanças....

Sou cigana, sou egípcia, sou a bruxa
Olhos vivos, de mistérios milenares...
Disfarçados, maquiados, penetrantes...
Sou a dama recatada, sou a mártir
Olhos baixos, tímidos, suplicantes...
Sou guerreira, sou o bárbaro comandante
Olhos vivos, atentos, vigilantes...

Sou assim...
Sou completa, inteira e fragmentada
Um conjunto do que fui, do sou e o que serei
Muitas vidas, muitos corpos, muitos Eus
Se resumem nesses olhos que me fitam
E escondem tristezas, alegrias e amores,
Segredos, mistérios, tantas dores...
Mas que viram e viveram tantas coisas
E fizeram de mim esse enigma
Essa pessoa dividida e amiga
Tão cheia de afeto e de doçura
De cicatrizes tão profundas e tão leves

Sou cortesã,
Sedutora, sensual, dissimulada
Sou a mãe,
Carinhosa, amorosa e dedicada...
Sou guerreira,
Lutadora, persistente, arrebatada....

Simplesmente...

Sou mulher.
Companheira, amiga, apaixonada....


07/12/2006.