quinta-feira, 8 de novembro de 2007

COLEÇÃO

Sou uma colecionadora de afetos.

Já falei isso antes. É que não consigo imaginar a vida sem eles. E, como boa colecionadora, tenho-os de todos os tipos. Muitos se perderam no tempo e esmaeceram. Outros se perderam nos labirintos da vida e eventualmente são resgatados... para se perderem outra vez pouco depois... Alguns são especiais e indestrutíveis, outros eram vidro e se quebraram... Mas não importa. São meus afetos. E valem pela importância que tiveram um dia. Para cada um, tenho pelo menos um quadro na parede da memória...

Tenho afetos que são apenas lembranças de breves encontros. Nenhuma intimidade especial, nenhuma grande convivência, apenas uma simpatia — mútua ou não — que guardo com carinho. Na categoria “lembranças”, tenho também os afetos das amizades de infância que se perderam nas estradas da vida... E aí, vale ressaltar que às vezes é melhor mesmo que permaneçam perdidos.... Muitas vezes, ao reencontrá-los, descobrimos que foram corroídos pelas traças do tempo...

Existem os afetos leves, aqueles que vemos de vez em quando, que é gostoso estar junto, mas cujas construções de vida são diversas. Temos pouco em comum, exceto um enorme carinho. São aqueles que pertencem de verdade a afetos comuns.

Tenho afetos que são enormes amizades que quase não vejo mais... Esses aquecem meu coração com as histórias que construímos... São especiais, porque são recíprocos e têm um jeito próprio de marcar o tempo... A cada vez que nos revemos, é como se não tivesse passado mais que alguns minutos...

Tenho afetos que possuem uma maneira peculiar de entender o espaço. Não existem distâncias que embotem a intimidade, o amor, a confiança. São especiais, também. E aquecem a alma, porque existe uma ligação invisível que nos mantém firmes, por sabermos que são um porto seguro onde podemos nos abrigar, mesmo à distância.

Tenho afetos herdados. São trazidos por afetos em comum, e os adotamos como nossos. Existe um conhecimento prévio, um carinho prévio... E ao nos conhecermos é como se fosse apenas um reencontro. Outros, pelas mesmas razões, tornam-se desafetos. Talvez pela dificuldade de entender que o coração é um lugar de muitas moradas e cabe sempre mais um. Sentem-se inseguros com o partilhar de alguém amado.

Tenho afetos capengas, unilaterais, desprezados, desbotados... É um lado triste do gostar. Pessoas a quem queremos bem, por quem temos um enorme carinho, mas sabemos que não temos igual significância para elas. E gostamos assim, mesmo, porque o afeto é nosso e não precisa pedir licença para existir. Nessa categoria estão também aqueles que não conseguimos retribuir em igual proporção... E aqueles que o tempo fez perderem a cor e o brilho, que fizeram o caminho inverso e, de amigos tornaram-se meros conhecidos.

Finalmente tenho afetos que são um oásis nos desertos da vida. Aqueles que sei que estarão sempre ali, sólidos, incorruptíveis, refrescantes e disponíveis para o descanso da alma atribulada. Muitos desses são tão antigos que se perdem nas espirais do tempo. Nossos olhos se encontram e sabemos que temos histórias das quais nem mesmo lembramos, de outros mundos, outras épocas. São almas irmãs que se acompanham desde antes do tempo existir...

É este o meu tesouro.
É este o meu conforto nos momentos mais difíceis. Saber que, como já disse o cantor... “é tão bonito quando a gente entende que nunca está sozinho por mais que pense estar”. 

Gosto de cuidar dos meus afetos. De arejá-los, alimentá-los e deixá-los ao sol por um tempinho... Gosto de acarinhá-los e fazê-los saber o quanto são queridos. Alguns se sentem felizes com isso, mesmo que não retribuam em igual intensidade. Outros não entendem o significado e menosprezam o meu bem-querer. Maltratam, magoam, deixam ao acaso, zombam de meu carinho. Outros ainda — graças a Deus, bem poucos — por pura perversidade fazem o impossível para matar o meu afeto por eles. Alguns conseguem, outros apenas o fazem mudar de categoria, tirando o brilho, quebrando cristais e destruindo imagens. Desses, eu sinto pena. Não por terem destruído meu afeto por eles, mas não saberem a importância que tem um afeto — qualquer afeto — pois, se o soubessem, respeitariam o sentimento alheio.

A perda de um afeto me deixa marcas profundas. Dói muito. Demais. Ao longo da vida, contudo, aprendi a reconhecer as diferentes categorias e dar-lhes o valor correspondente. Aprendi a diferenciar meros conhecimentos — ainda que antigos — de verdadeiros afetos — ainda que recentes.  Por esses últimos eu luto, eu mato e morro. E só a muito custo admito que os perdi. E essa perda deixa, inevitavelmente, cicatrizes. Quebra as luzes que iluminam meus olhos e faz a dor transbordar da represa do coração.

Porque cada um dos meus afetos é importante para mim. E cada um deles sabe disso. Há os que são especiais e cuidam de mim em igual intensidade. Eles são os anjos que me acompanham e iluminam meus caminhos com a luz de seus afetos. Cada um sabe o lugar que ocupa em meu coração.

É essa benção que perfuma minha vida. São meus afetos verdadeiros que me dão forças para seguir adiante e, a cada dia, fazem de mim um ser humano melhor.

01 / 11 / 2007

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Transformação

Já dizia Lulu Santos: “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. E ele está certo. A vida é movimento constante e não permite retrocesso. Há, no entanto, que saber a diferença entre “mudar” e “transformar-se”.

O que é verdadeiro não muda — é eterno. Mas transforma-se a cada dia, evoluindo e adaptando-se ao novo “nós”. Não somos os mesmos de anos atrás. Amadurecemos, evoluímos e aprendemos. Mas feliz de quem amadurece sem deixar que a vida destrua a essência e a beleza dos sentimentos sinceros. “Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”. Felizes os que caminham numa mesma direção e conseguem manter intactos os laços.

Cada pessoa sempre é a marca das lições diárias de outras tantas pessoas”. Conosco não podia ser diferente. Trazemos no coração o peso de tantas lutas e, na alma, as cicatrizes de um aprendizado que nem sempre foi fácil. E o caminho do conhecimento não tem volta. É impossível retornar ao aconchego da inconsciência uma vez que a alma foi despertada para a vida.

O afeto que nos une não é mais o mesmo. As mudanças são perceptíveis e nem sempre agradáveis. Ele cresceu e modificou-se conosco, mas não perdeu o brilho. Nós estamos inscritos na história um do outro qual hieróglifos nas pirâmides do Egito. E queiram os anjos que sejamos tão perenes quanto eles... Essas mudanças não são, necessariamente, ruins. É bom ver que nossa amizade não é a mesma de quando nos conhecemos. Que ela continue assim, em mutação, pois não evoluir é estagnar. E estagnação é morte.

A estrada que trilhamos juntos — e tantas vezes separados — é feita de sonhos, dor, risos, choro, alegria, emoção... Mas sobretudo de cumplicidade e confiança. E cimentada com muita verdade. Até mesmo quando fomos duros e nos magoamos, foi a verdade deste afeto que nos fez voltar, dar as mãos e sorrir outra vez. E mais uma vez abrir nossos corações e confiarmos um no outro. E, contra todas as evidências, nos sabermos seguros um com o outro.

Faz um longo tempo que o destino nos colocou numa mesma estrada. Compartilhamos tanto... Rimos e choramos juntos... Nos agredimos e nos consolamos mutuamente... E, principalmente, pudemos ser nós mesmos, nos sabermos amados apesar de nós mesmos, com nossos defeitos e nossas qualidades, sem máscaras. Sim, tentamos esconder nossas fragilidades por trás da “personna”. Isso é humano. Mas, no fundo, sempre tivemos certeza do que significamos um para o outro.

Tanta história entre hoje e o dia em que nos conhecemos... Esse dia é nosso. Que os céus nos permitam comemorá-lo para sempre. A cada ano mais belos, a cada ano mais fortes e, sobretudo, a cada ano mais próximos, mesmo que as estradas da vida coloquem milhares de Km entre nós. Porque o que temos é raro e belo. Temos o amor que transcende, que cura as mágoas e apaga cicatrizes, que nos faz voltarmos em busca do que sabemos ser nosso: um afeto verdadeiro, ainda que mutável. Pois, mesmo sem percebermos, ele é um esteio para nosso crescimento pessoal.

E como uma lagarta que transforma-se após um tempo de casulo, vamos cuidar para que essa amizade seja a nossa borboleta, espalhando sempre beleza por onde passar... Para que os raios de sol nunca deixem de brincar em seu sorriso nem seus olhos percam o brilho de estrelas que têm!

Não mude. Transforme-se. Apenas isso: transforme-se em tudo o que de melhor você pode ser. E vou ficar feliz se eu tiver podido contribuir pra isso, como ao durante todo esse tempo você tem ajudado minha transformação em um ser humano melhor e mais inteiro.

Obrigada por ter feito parte da minha vida ao longo de todo esse tempo!

24 / 10 / 2007

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Feliz Aniversário

Mariú é simplesmente única.
Madrasta de alguns, fada madrinha de outros.  Complicada e perfeitinha, apareceu na vida de muitas pessoas durante estas ... rotações... E fez história.

Na realidade, Mariú é uma personagem, que já encena vários filmes. Já foi a Bela da Tarde, nas ruas perfumadas de Paris... Já fez Dona Flor, na janela do Sabor & Arte ao lado de Vadinho... Sem esquecermos de Amor e Restos Humanos, apaixonada pelos gays... Na comedia da Família Buscapé (com dona Andréa e crianças)... Foi professora em Sociedade dos Poetas Mortos e, tantos outros... Eu a conheci, quando ela fazia a participação no filme A Noite Americana, onde ela encarava o papel de uma produtora... Aliás, papel que ficou rotulada e sempre foi chamada a fazer novos filmes assim. Sei que a mídia sempre mente, mas em recente entrevista, Mariú afirma que gostaria de fazer um grande papel de Diretora de Arte, porem até hoje só deram-lhe participações...

Não acredito na imprensa.
Uma artista como Mariú que já fez tantos papeis e com um currículo invejável não deve ter sonhos... Até televisão fez, lembro-me muito bem de Jeannie é um Gênio, da atuação em Madre Tereza... Porém o papel que muitos a lembram (desculpem-me a ousadia, mas não acho o melhor papel dela em filmes) foi A Megera...

Eu, como cineasta, tive a sorte de tê-la em vários filmes da minha vida. Os mais famosos foram, Obsessão Fatal, Melhor é Impossível... E o que mais me lembro é aquela trilogia: Fale com Ela I, II e III... nem lembro se teve o quarto, mas sempre existe uma expectativa dele estrear...

Hoje estou longe, mas não poderia deixar de homenagear a figura ilustre que me ensinou muitas coisas.

Marily, Marilu, Amélia, Mari ... FELIZ ANIVERSÁRIO.
Muita luz!

                                                                                                                                 Chico  Amorim
                                                                                                                      12/ 01/ 2007

Meus Secretos Amigos


Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.


Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite rivalidade.

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!

Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências.

A alguns deles eu não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles.

Eles não iriam acreditar! Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.

Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare nem os procure. E, às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese,  dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem eles junto de mim, compartilhando daquele prazer.

Se alguma coisa me consome e me envelhece, é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam ou talvez nunca venham a saber que são meus verdadeiros
amigos.

"Amigos a gente não faz. Reconhece-os"

(Vinícius de Moraes)

Alguém e Minha Poesia


Para Mariú Gondim

 

 


Alguém leu uma das minhas poesias
Alguém sentiu o que eu mais ou menos sentia quando escrevia
Pois nem eu direito sabia
Só sabia que devia, que queria, e assim eu ia....e assim eu fui
Ficou tudo escrito
E me despojando da vergonha e evitando o desprezo imediato
Entreguei a alguém
Me revelei
Mostrei exatamente um momento em que errei
Quando ocultei uma paixão e encontrei o nada
Quando no meio do nada encontrei um tudo e escrevi
Me sinto inteiro quando escrevo, pois estou pela metade
A vontade não vem em vão
É salvação
Alguém disse que gostou da minha poesia
Eu sabia, que o ponto final não a interrompia
O retorno viria nas voltas que o mundo dá
Na boca de alguém que me oferta alegria
Alguém que entendeu mais ou menos
O que eu mal entendia
Tem mais alguém tentando decifrar o amar
Tem cheiro de poeta no ar.
De: Eduardo Japiassu
*2001


As Mulheres Celtas

As mulheres de origem CELTA eram criadas tãolivremente quanto os homens.

A elas era dado o direito de escolherem seus parceiros, e nunca poderiam ser forçadas a uma relação que não queriam.  Eram ensinadas a trabalhar para que pudessem garantir seu sustento, bem como eram excelentes donas de casa e mães.


A primeira lição era:

·   "Ama teu homem e o segue, mas somente se ambos representarem um para o outro o que a deusa mãe ensinou: amor, companheirismo e amizade".
 ·  Jamais permita que algum homem a escravize: você nasceu livre para amar, e não para ser escrava.
 ·     Jamais permita que o seu coração sofra em nome do amor. Amar é um ato de felicidade. Por que sofrer?
 ·  Jamais permita que seus olhos derramem lágrimas por alguém que nunca fará você sorrir!
·  Jamais permita que o uso do seu corpo seja cerceado. Saiba que o seu corpo é a moradia do espírito. Por que mantê-lo aprisionado?
·  Jamais se permita ficar horas esperando por alguém que nunca virá, mesmo tendo prometido!
· Jamais permita que seu nome seja pronunciado em vão, por um homem cujo nome você sequer sabe!
·   Jamais permita que o seu tempo seja desperdiçado com alguém que nunca terá tempo para você!
·  Jamais permita ouvir gritos em seus ouvidos. O amor é o único que pode falar mais alto!
· Jamais permita que paixões desenfreadas transportem você de um mundo para outro, que nunca existiu!
· Jamais permita que os outros sonhos se misturem aos seus, fazendo-os virar um grande pesadelo!
· Jamais acredite que alguém possa voltar, quando nunca esteve presente!
·  Jamais permita que seu útero gere um filho que nunca terá pai!
· Jamais permita viver na dependência de um homem, como se você tivesse nascido inválida!
· Jamais se ponha linda e maravilhosa a fim de esperar por um homem que não tenha olhos para admirá-la!
· Jamais permita que seus pés caminhem em direção a um homem que só vive fugindo de você!
· Jamais permita que a dor, a tristeza, a solidão, o ódio, o ressentimento, o ciúme, o remorso e tudo aquilo que possa tirar o brilho dos seus olhos dominem, fazendo arrefecer a força que existe dentro de você!


E, sobretudo, jamais permita que você mesma perca a dignidade de
ser mulher! 

                                                                                                               (Autor Desconhecido)

* EM PAZ

A vida toda quiseram que eu fosse o que eu não era. E muito dificilmente conseguiram ver o que tão bem eu sabia ser. E, por desconhecimento da matéria de que era feita, eu achei que eles sabiam o que diziam, e exaustivamente tentei ser o que esperavam de mim.

E assim eu me corroí de culpa por não ser tão generosa e sempre ficar atenta ao meu brinquedo preferido em mãos alheias — que tudo podiam por ser visitas... E não entendia porque quando eu era a visita, só podia brincar com o que me era oferecido. Me senti mal a cada explosão de agressividade, não aprendi a revidar os tapas que levava, e acreditei que cada pequena tragédia era castigo divino por faltas cometidas — mesmo que eu não lembrasse de nenhuma que merecesse tanta punição... Mas eu era “inteligente” e por isso devia entender...

E eu odiava ser inteligente! Porque as pessoas inteligentes tinham que ser boazinhas e responsáveis. E cultas. E ativas. E meu dia era cheio com aulas e treinos. Disso eu até gostava. Porque gostava de ver as pessoas e aprender as coisas. E arrumava tempo pra brincar, também...  Mas, claro, desde que não brigasse e dividisse meus brinquedos com as outras crianças... E esperasse pra comer o brigadeiro depois dos parabéns... Invariavelmente uma de minhas primas os comia todos antes.... Mas isso era falta de educação. E eu também era “ajuizada” e, por isso, bem educada.

Ai, como eu detestava ser “ajuizada”! Porque meninas ajuizadas não fogem pra ir pras festinhas que foram proibidas... Nem namora escondido com o menino mais levado da turma... Muito menos experimenta os mais diferentes drinks ou bebe além da conta. Nem inventa que está doente pra não fazer a prova... Nem mente que não vai ter prova pra ficar até o final da festa... E quando qualquer dessas coisas acontecia... a culpa mais uma vez me corroia. E, se depois acontecia uma coisa desagradável... claro! Era castigo. Quem mandou rir tanto???

Se eu mergulhava na leitura e esquecia do mundo... estava provocando. Se eu conhecia um determinado assunto além do esperado para minha idade... era “enciclopédia”. Se eu era muito comunicativa... era metida. Se eu me isolava, pensativa... estava querendo chamar a atenção e afastando as pessoas. Se eu não queria dividir algo de que gostasse muito.. era egoísta. Se era desprendida... era capacho. Se eu queria correr o mundo... era bandoleira. Se eu exaltava as qualidades de alguém... era ingênua e confiava demais. Se enxergava os defeitos...estava sendo maldosa... Não me cuidava o suficiente. Não estudava o suficiente. Não era suficientemente atenciosa. Não era magra o suficiente. E minha paixão por cinema e televisão e dança e teatro nada mais eram que futilidades e delírios juvenis... porque arte é para ser vista... jamais para ser exercida.

E eu passava metade do meu dia a tentar entender essas informações tão contraditórias e achar a justa medida. Porque ser o que todos queriam que eu fosse... era impossível. Mas eu era inteligente, e devia saber como fazer... Isso também devia me bastar. Nunca entendi porque as pessoas inteligentes não podiam sentir falta de elogios ou vontade de experimentar coisas novas, ou preferir uma festinha a um programa mais cultural... E como eu era inteligente, nunca me explicavam essas coisas...

Assim, cresci confiando sem confiar realmente. Sabendo, mas sem ter segurança no que sabia. Querendo mas não esperando realmente obter. Brincando, saindo, rindo... sem realmente me divertir. E vivi as vitórias e transgressões de meus amigos, por tabela, como se fossem minhas. Eu era coadjuvante, nunca protagonista. E acho que se não fui eu que inspirei a Microsoft, como diz um amigo meu, pelo menos fui a musa do controle remoto e do localizador GPS: porque nem mesmo milhares de km de distância me faziam deixar de seguir a maioria das normas estabelecidas...mesmo que eu não concordasse com elas.

É claro que uma pessoa tão inteligente não poderia ser exatamente passiva... E minha rebeldia se manifestava nas respostas... rápidas, agudas e certeiras. O que me valeu mais uma etiqueta inadequada: agressiva. E aprendi a usufruir do que me era permitido. Fazer teatro não pode, mas assistir, pode? Eu era barata de teatro e ia a todos os espetáculos locais ou vindos de fora. E graças a Deus, na minha adolescência e juventude Recife produzia muitos e ótimos espetáculos!!!! Boate não pode, mas barzinho, pode? Eu freqüentava todos!!! Estudar teatro e cinema no Rio não pode.. fiz arquitetura. Morar fora não pode.. eu viajava todas as férias.

E fui driblando as dificuldades, engolindo as mágoas, secando as lágrimas, explodindo de vez em quando... E golpeando com respostas sarcásticas e irônicas a cada vez que me sentia agredida. Mas fui também trabalhando meu interior, reconstruindo minha identidade. Adiei o sonho de ser artista e fui atrás da verdadeira independência: a financeira O preço a pagar foi alto. Mas valeu a pena.

Estive só nas minhas horas mais difíceis. Conheci o inferno da solidão e da melancolia quase crônica. Mas fui atrás de cada pedacinho de mim e me reconstruí. E me reconstruo a cada dia. Me reintegro a cada dia. Me redescubro a cada dia. E posso não ter histórias de grandes romances ou grandes travessuras, mas conheço um mundo que as pessoas medíocres e acomodadas nunca vão sequer suspeitar que existem. 

Aprendi aos poucos a confiar em mim mesma. A saber quem eu sou. A aceitar que minha visão do mundo é única e inusitada. E a colecionar pessoas, histórias, amigos. Meu caminho é solitário, eu sei. Mas aprendi a ser uma excelente companhia para mim mesma. Jamais menosprezo um afeto, venha ele de onde vier. E não espero reciprocidade no carinho que dou.

Ainda não curei todas as feridas. Ainda não me livrei de todos os medos. Ainda não exorcizei todos os fantasmas. Ainda não descobri todas as belezas... Mas estou no meu caminho.

Hoje eu posso dizer: estou em paz comigo mesma.
Isso me basta.

                                                                                                                       
Recife,
17/ Fevereiro/ 2007