A vida toda quiseram que eu fosse o que eu não era. E muito dificilmente conseguiram ver o que tão bem eu sabia ser. E, por desconhecimento da matéria de que era feita, eu achei que eles sabiam o que diziam, e exaustivamente tentei ser o que esperavam de mim.
E assim eu me corroí de culpa por não ser tão generosa e sempre ficar atenta ao meu brinquedo preferido em mãos alheias — que tudo podiam por ser visitas... E não entendia porque quando eu era a visita, só podia brincar com o que me era oferecido. Me senti mal a cada explosão de agressividade, não aprendi a revidar os tapas que levava, e acreditei que cada pequena tragédia era castigo divino por faltas cometidas — mesmo que eu não lembrasse de nenhuma que merecesse tanta punição... Mas eu era “inteligente” e por isso devia entender...
E eu odiava ser inteligente! Porque as pessoas inteligentes tinham que ser boazinhas e responsáveis. E cultas. E ativas. E meu dia era cheio com aulas e treinos. Disso eu até gostava. Porque gostava de ver as pessoas e aprender as coisas. E arrumava tempo pra brincar, também... Mas, claro, desde que não brigasse e dividisse meus brinquedos com as outras crianças... E esperasse pra comer o brigadeiro depois dos parabéns... Invariavelmente uma de minhas primas os comia todos antes.... Mas isso era falta de educação. E eu também era “ajuizada” e, por isso, bem educada.
Ai, como eu detestava ser “ajuizada”! Porque meninas ajuizadas não fogem pra ir pras festinhas que foram proibidas... Nem namora escondido com o menino mais levado da turma... Muito menos experimenta os mais diferentes drinks ou bebe além da conta. Nem inventa que está doente pra não fazer a prova... Nem mente que não vai ter prova pra ficar até o final da festa... E quando qualquer dessas coisas acontecia... a culpa mais uma vez me corroia. E, se depois acontecia uma coisa desagradável... claro! Era castigo. Quem mandou rir tanto???
Se eu mergulhava na leitura e esquecia do mundo... estava provocando. Se eu conhecia um determinado assunto além do esperado para minha idade... era “enciclopédia”. Se eu era muito comunicativa... era metida. Se eu me isolava, pensativa... estava querendo chamar a atenção e afastando as pessoas. Se eu não queria dividir algo de que gostasse muito.. era egoísta. Se era desprendida... era capacho. Se eu queria correr o mundo... era bandoleira. Se eu exaltava as qualidades de alguém... era ingênua e confiava demais. Se enxergava os defeitos...estava sendo maldosa... Não me cuidava o suficiente. Não estudava o suficiente. Não era suficientemente atenciosa. Não era magra o suficiente. E minha paixão por cinema e televisão e dança e teatro nada mais eram que futilidades e delírios juvenis... porque arte é para ser vista... jamais para ser exercida.
E eu passava metade do meu dia a tentar entender essas informações tão contraditórias e achar a justa medida. Porque ser o que todos queriam que eu fosse... era impossível. Mas eu era inteligente, e devia saber como fazer... Isso também devia me bastar. Nunca entendi porque as pessoas inteligentes não podiam sentir falta de elogios ou vontade de experimentar coisas novas, ou preferir uma festinha a um programa mais cultural... E como eu era inteligente, nunca me explicavam essas coisas...
Assim, cresci confiando sem confiar realmente. Sabendo, mas sem ter segurança no que sabia. Querendo mas não esperando realmente obter. Brincando, saindo, rindo... sem realmente me divertir. E vivi as vitórias e transgressões de meus amigos, por tabela, como se fossem minhas. Eu era coadjuvante, nunca protagonista. E acho que se não fui eu que inspirei a Microsoft, como diz um amigo meu, pelo menos fui a musa do controle remoto e do localizador GPS: porque nem mesmo milhares de km de distância me faziam deixar de seguir a maioria das normas estabelecidas...mesmo que eu não concordasse com elas.
É claro que uma pessoa tão inteligente não poderia ser exatamente passiva... E minha rebeldia se manifestava nas respostas... rápidas, agudas e certeiras. O que me valeu mais uma etiqueta inadequada: agressiva. E aprendi a usufruir do que me era permitido. Fazer teatro não pode, mas assistir, pode? Eu era barata de teatro e ia a todos os espetáculos locais ou vindos de fora. E graças a Deus, na minha adolescência e juventude Recife produzia muitos e ótimos espetáculos!!!! Boate não pode, mas barzinho, pode? Eu freqüentava todos!!! Estudar teatro e cinema no Rio não pode.. fiz arquitetura. Morar fora não pode.. eu viajava todas as férias.
E fui driblando as dificuldades, engolindo as mágoas, secando as lágrimas, explodindo de vez em quando... E golpeando com respostas sarcásticas e irônicas a cada vez que me sentia agredida. Mas fui também trabalhando meu interior, reconstruindo minha identidade. Adiei o sonho de ser artista e fui atrás da verdadeira independência: a financeira O preço a pagar foi alto. Mas valeu a pena.
Estive só nas minhas horas mais difíceis. Conheci o inferno da solidão e da melancolia quase crônica. Mas fui atrás de cada pedacinho de mim e me reconstruí. E me reconstruo a cada dia. Me reintegro a cada dia. Me redescubro a cada dia. E posso não ter histórias de grandes romances ou grandes travessuras, mas conheço um mundo que as pessoas medíocres e acomodadas nunca vão sequer suspeitar que existem.
Aprendi aos poucos a confiar em mim mesma. A saber quem eu sou. A aceitar que minha visão do mundo é única e inusitada. E a colecionar pessoas, histórias, amigos. Meu caminho é solitário, eu sei. Mas aprendi a ser uma excelente companhia para mim mesma. Jamais menosprezo um afeto, venha ele de onde vier. E não espero reciprocidade no carinho que dou.
Ainda não curei todas as feridas. Ainda não me livrei de todos os medos. Ainda não exorcizei todos os fantasmas. Ainda não descobri todas as belezas... Mas estou no meu caminho.
Hoje eu posso dizer: estou em paz comigo mesma.
Isso me basta.
Recife,
17/ Fevereiro/ 2007
Nenhum comentário:
Postar um comentário