terça-feira, 17 de janeiro de 2006

* FASES
















Sou como a lua:
Mutante.
Posso brilhar, plena e cheia
Com o amor que trago no peito
E iluminar as noites escuras de outro ser.
Se me magôo, murcho
E meu brilho decresce
Até não ser mais que uma fina fatia
Que apenas olhos amorosos conseguem ver.
Gestos de afeto me preenchem
E meu brilho volta a crescer
Iluminando cada vez mais
As estrelas que escondo no olhar.
E o desamor me apaga
Mostrando minha face escura e fria.
Vigio a escuridão que me vai na alma.
Sinto o frio que me gela os ossos
E libero vampiros e lobisomens
Que se escondem nos grotões mais profundos
E escuros de mim mesma.

Mas, ainda assim, eu brilho.
Porque a lua é dualidade,
E se uma face se mostra escura no ocidente
No oriente casais param encantados
Com o brilho intenso da plena lua cheia.
E sob a escuridão que tolda o meu olhar
Se esconde um coração apaixonado
Um ser carente, doído e assustado
Que se recolhe para lamber as próprias feridas
E voltar a brilhar, de luz intensa e prateada
Jorrando de seus olhos e seu sorriso
Com braços abertos e aquecidos
Pronta para dar ao ser amado o abrigo.

Sou como a lua.
Mutante, multifacetada, mas constante
Pois que as mudanças são apenas os reflexos
Das emoções que não consigo esconder.
Sou transparente.
Frágil, forte, intensa, passional,
Um ser apaixonado, irracional,
Que tenta a muito custo se conter
E vaza todo o amor que lhe é próprio
E o brilho que lhe vem do sol amado,
Traduzido no afeto de outro ser.

*Fev/ 2003

domingo, 8 de janeiro de 2006

* SEIXOS E CASCALHOS

A dose de mágoa e desacerto que nos cabe é inevitável. Há formas diferentes de encontrá-la, porém. Talvez sob os seixos que vemos já polidos nas praias alheias se escondam cacos de vidro.

Talvez entre os cascalhos que transbordam em nossas praias se escondam diamantes.

Impossível saber o gosto do vinho até prová-lo. Impossível saber se agüentamos o fardo até carregá-lo.

O que dá beleza e sentido a isso é a dose de amor, aprendizagem e harmonia que conseguimos filtrar a cada passo.

*1990

* IDENTIDADE


eu. comigo.
eu. em mim.
eu. sozinha.
eu. somente.
Mas sempre,
Mais que tudo,
Mais que nada,
EU INTEIRA,
Eu plena,
Aberta
E livre.

*1990

* NÃO ME VEJAM COMO HEROÍNA

Não me vejam como heroína
Sou apenas uma mulher transbordante de amor.
Não me vejam como idiota
Sou apenas uma mulher que aprendeu com seus erros
A ter complacência com os erros alheios.
Não me julguem cega de paixão.
A paixão não me turva os olhos
Nem embota o conhecimento.
Conheço defeitos e qualidades do homem que amo
E o amo por isso:
Por ser um homem em busca de si.

Não acredito em contos de fadas,
Em príncipes montados em cavalos brancos com arreios de prata,
Em duendes, fadas e poções mágicas.
Acredito apenas no que a vida me traz:
No calor do sol, no frescor da brisa,
Na beleza do luar, na magia do mar,
Na dança das flores coloridas
E na música dos pássaros...
Acredito na dor
Que traz um aprendizado em cada cicatriz.
Acredito que Deus está em cada coisa,
Em cada gesto de afeto,
Em cada momento da vida...
Que nos é dada pra aprendermos a ser feliz.

Não me vejam como a mística sonhadora.
Não o sou.
Sou apenas uma mulher
Que trilhou caminhos áridos
E feriu os pés nas pedras e espinhos,
E encontrou o oásis de um sorriso,
De um abraço amigo,
De uma palavra de carinho.
Sou apenas uma mulher
Que desceu ao fundo do poço sem fundo
E foi puxada de volta pela força do amor:
Do amor à vida,
Do amor a si mesma,
Do amor das almas-irmãs que me acompanham.

Conheci todas as dores
E tive a força de não fugir das lutas.
Encarei minhas personnas
E descobri as travas que as grudavam ao meu rosto.

Não me vejam como heroína:
Não consegui tirar de vez as armaduras,
As máscaras, as capas
Nem descer da torre de marfim.
Mas desbravei cada caminho,
Vasculhei todos os sótãos,
Percorri os labirintos
E cheguei um pouco mais perto do centro de mim.
Sou apenas humana:
Sinto medo, rancor, orgulho.
Sinto dor, prazer, carinho.
E as cicatrizes,
Que recobrem meu peito como uma malha rendada,
Me ensinaram a dor de sair à procura de si mesmo.
Me ensinaram o respeito
Àquele que se busca acima de tudo,
Que empreende a jornada ao centro de si
Que sofre na caminhada
E ousa percorrer os caminhos mais duros
Buscando as peças do mosaico
Que irá, enfim, transformá-lo num ser inteiro.

Não me vejam como tola,
Não se apiedem de mim,
Não me vejam como uma supermulher
Nem me deifiquem.

Não me invejem nem me julguem.
Sou apenas o que sou:
Um ser fragmentado, ferido, assustado.
Um ser que perdeu momentos importantes da vida
Por falta de capacidade de reconhecê-los.
Um ser que ainda luta para encontrar seus caminhos
Que procura sua alma gêmea,
Ou simplesmente outro ser
Que entenda o que significa a busca de si mesmo,
Que reconheça em seu rosto uma companheira de jornada
E aceite todo o amor que lhe transborda do peito.

Sou apenas uma mulher
Que segue em frente apesar do medo,
Apesar das dores
E que sorri por entre os olhos molhados
Agradecida por mais um dia
De aprendizado, de caminhada,
De vida.

*2002


sábado, 12 de novembro de 2005

* MERGULHO

Mergulho em mim mesma a cada dia
E busco lá no fundo a minha pérola
Mas cada ostra que encontro, está vazia.
Subo à tona e respiro um pouco mais
E volto ao meu mergulho, incessante
Por que sei que lá no fundo, cintilante
O meu tesouro permanece, intocado.

Passeio entre navios naufragados
E entre restos de lembranças, eu vasculho.
Memórias de infância, de outras vidas,
De um tempo em que, sem medo,
Eu brilhava.
E ria, e brincava, e planejava
E acreditava que a vida me esperava
Pra me dar contas das pérolas que guardava.

Doce ilusão!
A vida não espera, passa.
A nós é dado procurar a pérola
E dela fazer jóia, ou manter guardada.

* Abr. 2002




quinta-feira, 10 de novembro de 2005

* EXPLOSÃO


Uma mulher explode dentro de mim!
E eu sinto sua presença
Em cada fibra do meu corpo
— Que é o dela.
Choro baixinho com sua tristeza mansa
Maravilho-me com suas descobertas
E soluço de prazer junto com ela.

É através dela que descubro os mundos:
O mundo intenso que se esconde
Atrás deste, banal, que é o que vemos,
E o mundo infinito que existe
Por trás de todos os olhos,
Por baixo de todas as peles.

Ela afia em meu corpo suas garras
— de felina —
E os fios de sangue
Que escorrem em minha pele
Fazem brotar em mim
Flores mágicas de emoção.

Essa mulher-criança
Me dá a mão e pula pra dentro de mim.
E acende as luzes
De todos os meus recantos.
E brinca de fada, de bicho do mato,
De princesa e dragão cor-de-rosa.
E mistura emoções em doce alquimia.

Essa mulher-felina
Vira seus olhos pra dentro de mim
E atiça meus instintos de bicho;
Dá lustro ao pelo de pantera,
E maciez ao meu pulo/andar de gata.
Aguça meu faro,
Meus sentidos todos!

Se apossa de mim
E deixa, enfim, explodir meu gozo
— que é o seu próprio!

*Mar 1988

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

* FASCINAÇÃO

 
 

Esse homem moreno, mistura de índio e de mouro, me fascina! Tento decifrar cada gesto, cada expressão, cada músculo.


Em vão. Ele parece esconder segredos que estarão sempre além do meu alcance. E no entanto, existe nele uma pureza, uma transparência, que me extasia! É como um diamante. Bruto, sem ter sofrido as técnicas da lapidação. Puríssimo, sem ter se contaminado com as sujeiras dos cascalhos. Irradiando a luz que o atravessa, sem manchas. É isso, ele é.. o meu diamante negro.

Olho para ele e viajo... imaginando os mistérios milenares que se escondem por trás do seu sorriso franco e dos seus olhos de índio. Desconfiado. Místico como um indiano. Sensual como um Sheik do deserto. O meu Sheik. Posso vê-lo em um cavalo árabe, a cavalgar sobre as dunas, o turbante branco ressaltando a cor de cobre do seu rosto, os músculos retesados para conter a força do animal... E posso vê-lo enlouquecer de prazer na sensualidade dos ritmos e das odaliscas do Oriente. Felino... Meu homem. Que me leva à loucura no ritmo do seu corpo moreno. Que me descobre sob as mil capas que me envolvem como uma cebola. Revela meus segredos. Liberta minhas feras. Nós dois. Pantera e Leopardo. Sutis. Ferozes. Sensuais.

Meu homem. Meu Sheik. Meu menino... É uma doçura tão grande que emana de todo o seu ser, que me pergunto até onde é possível chegar quando se mergulha tão profundamente em um sentimento, na vida. É um riso e uma esperança de criança que me arrebata! Me faz soltar as velas e deixar correr o barco ao sabor do vento. Não, não existe nada de irresponsável neste soltar-se. Há apenas uma confiança mútua no porto que o outro representa. No calor dos braços dele, a fortaleza do seu peito, no destemor de sua proteção. Meu herói.

Meu refúgio. Um refúgio que às vezes também se fecha — para “balanço”, talvez? E me atordoa. Como guerreiro da Idade Média, levanta as pontes do seu castelo e o fosso fica intransponível. Impossível vencer seus dragões, derrubar suas barreiras e fazer contato. Ele está só. E a desolação consome todo o campo ao seu redor, como na lenda do Rei Arthur. Ele é o meu Sir Lancelot, o guerreiro solitário da armadura brilhante, na eterna busca do Santo Graal. Meu deus grego, inatingível. A Esfinge de Édipo. O oráculo de Delfos, com as mais profundas análises do comportamento humano. Inclusive do meu próprio.

Isso me confunde e me fascina. Jamais me vi tão nua frente a outro ser humano. Jamais me senti tão completa. E nem tão fragmentada. Tão protegida e tão cheia de medos. Jamais senti tanta sede de conhecimento e compreensão. Jamais alguém se me mostrou a um tempo tão simples e tão complexo. Tão forte e tão vulnerável. Nem me transmitiu tanta paz, um sentimento tão forte de plenitude!

Olho para esse rosto moreno de menino e vejo um sábio de milhares de anos! Numa fração de segundo sinto que o possuo inteiro — e que ele me escapa por completo. Embriago-me com sua doçura e firo-me em sua áspera frieza. Sinto-me protegida pela sua força e coragem, e tremo de insegurança pela sua firmeza (e se ele “decidir” me deixar, vai manter a decisão por mais que sofra — por mais que eu sofra). Ardo de desejo pela sua sensualidade viril. Felino. Meu Leopardo. Divirto-me junto com a criança imortal que reina em seu coração. Emociono-me com a sua sensibilidade. Apaixono-me...

Esse é o meu homem. O último dos moicanos. Exemplar raro de uma raça em extinção: ser humano. Meu diamante mouro. Caleidoscópio que me fascina. Meu Mago, que me envolve em ondas de amor, carinho, compreensão e prazer. Que extrai de mim o que de melhor tenho: toda a emoção, toda a luz que sou capaz de irradiar!

.Jun.1990