Esse homem moreno, mistura de índio e de mouro, me fascina! Tento decifrar cada gesto, cada expressão, cada músculo.
Em vão. Ele parece esconder segredos que estarão sempre além do meu alcance. E no entanto, existe nele uma pureza, uma transparência, que me extasia! É como um diamante. Bruto, sem ter sofrido as técnicas da lapidação. Puríssimo, sem ter se contaminado com as sujeiras dos cascalhos. Irradiando a luz que o atravessa, sem manchas. É isso, ele é.. o meu diamante negro.
Olho para ele e viajo... imaginando os mistérios milenares que se escondem por trás do seu sorriso franco e dos seus olhos de índio. Desconfiado. Místico como um indiano. Sensual como um Sheik do deserto. O meu Sheik. Posso vê-lo em um cavalo árabe, a cavalgar sobre as dunas, o turbante branco ressaltando a cor de cobre do seu rosto, os músculos retesados para conter a força do animal... E posso vê-lo enlouquecer de prazer na sensualidade dos ritmos e das odaliscas do Oriente. Felino... Meu homem. Que me leva à loucura no ritmo do seu corpo moreno. Que me descobre sob as mil capas que me envolvem como uma cebola. Revela meus segredos. Liberta minhas feras. Nós dois. Pantera e Leopardo. Sutis. Ferozes. Sensuais.
Meu homem. Meu Sheik. Meu menino... É uma doçura tão grande que emana de todo o seu ser, que me pergunto até onde é possível chegar quando se mergulha tão profundamente em um sentimento, na vida. É um riso e uma esperança de criança que me arrebata! Me faz soltar as velas e deixar correr o barco ao sabor do vento. Não, não existe nada de irresponsável neste soltar-se. Há apenas uma confiança mútua no porto que o outro representa. No calor dos braços dele, a fortaleza do seu peito, no destemor de sua proteção. Meu herói.
Meu refúgio. Um refúgio que às vezes também se fecha — para “balanço”, talvez? E me atordoa. Como guerreiro da Idade Média, levanta as pontes do seu castelo e o fosso fica intransponível. Impossível vencer seus dragões, derrubar suas barreiras e fazer contato. Ele está só. E a desolação consome todo o campo ao seu redor, como na lenda do Rei Arthur. Ele é o meu Sir Lancelot, o guerreiro solitário da armadura brilhante, na eterna busca do Santo Graal. Meu deus grego, inatingível. A Esfinge de Édipo. O oráculo de Delfos, com as mais profundas análises do comportamento humano. Inclusive do meu próprio.
Isso me confunde e me fascina. Jamais me vi tão nua frente a outro ser humano. Jamais me senti tão completa. E nem tão fragmentada. Tão protegida e tão cheia de medos. Jamais senti tanta sede de conhecimento e compreensão. Jamais alguém se me mostrou a um tempo tão simples e tão complexo. Tão forte e tão vulnerável. Nem me transmitiu tanta paz, um sentimento tão forte de plenitude!
Olho para esse rosto moreno de menino e vejo um sábio de milhares de anos! Numa fração de segundo sinto que o possuo inteiro — e que ele me escapa por completo. Embriago-me com sua doçura e firo-me em sua áspera frieza. Sinto-me protegida pela sua força e coragem, e tremo de insegurança pela sua firmeza (e se ele “decidir” me deixar, vai manter a decisão por mais que sofra — por mais que eu sofra). Ardo de desejo pela sua sensualidade viril. Felino. Meu Leopardo. Divirto-me junto com a criança imortal que reina em seu coração. Emociono-me com a sua sensibilidade. Apaixono-me...
Esse é o meu homem. O último dos moicanos. Exemplar raro de uma raça em extinção: ser humano. Meu diamante mouro. Caleidoscópio que me fascina. Meu Mago, que me envolve em ondas de amor, carinho, compreensão e prazer. Que extrai de mim o que de melhor tenho: toda a emoção, toda a luz que sou capaz de irradiar!
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