Em meio a toda a dor
Encontro em mim o conforto
De poder escrever versos.
Faço da dor poesia,
Da angústia, contraponto,
De cada grito, exclamação.
Marco o ritmo com soluços,
Transformo lágrima em vírgula,
E os pedaços de sonhos
Que se perdem na hemorragia
Viram notas — que não soam,
Pois a dor que trago no peito
Me prende a voz na garganta.
O meu verso é o canto triste
De um cantor que não tem voz.
É grito mudo e doído.
É solidão. Desencanto.
É desalento. Desencontro.
Descompasso passo a passo
Com os passos do meu mundo.
E já nem sei se o que escrevo
É poesia que concretiza a dor,
Ou se é minha dor que se poetisa
E se esvai em versos.
Recife,
04 / Agosto / 1987