sexta-feira, 19 de outubro de 2007

* DOR E POESIA

Em meio a toda a dor
Encontro em mim o conforto
De poder escrever versos.
Faço da dor poesia,
Da angústia, contraponto,
De cada grito, exclamação.
Marco o ritmo com soluços,
Transformo lágrima em vírgula,
E os pedaços de sonhos
Que se perdem na hemorragia
Viram notas — que não soam,
Pois a dor que trago no peito
Me prende a voz na garganta.

O meu verso é o canto triste
De um cantor que não tem voz.
É grito mudo e doído.
É solidão. Desencanto.
É desalento. Desencontro.
Descompasso passo a passo
Com os passos do meu mundo.
E já nem sei se o que escrevo
É poesia que concretiza a dor,
Ou se é minha dor que se poetisa
E se esvai em versos.




Recife,
04 / Agosto / 1987

UMA MULHER

Sou uma mulher em marcha.
Nem sempre sei direito
Qual o rumo,
Qual o sentido,
Mas nunca perco o contato
Com o objetivo.

Sou uma mulher em luta
— Nem sempre tão profícua —
Contra preceitos,
Preconceitos,
Velhos fantasmas e medos,
Dúvidas e limitações.

Sou uma mulher em busca
Do sentido maior da vida,
De conhecimento, unidade,
De equilíbrio e justiça,
Da cura para as feridas
E do prazer de sorrir.

sábado, 29 de setembro de 2007

* EXTREMOS

Minha inteligência fez de mim
Alguém extremamente burra
Em se tratando de emoções...
Minha sagacidade fez de mim
Alguém extremamente crítica...
E minha criticidade me tornou
Extremamente criticada...

Minha sensibilidade me fez ser,
Sempre,
Extremamente magoada...
Minha generosidade, sempre
Me fez ser extremamente explorada....
Minha disponibilidade
Sempre me trouxe intrigas e disputas...

Minha capacidade de amar
Fez de mim alguém extremamente rejeitada....
Minha capacidade de perdoar o imperdoável
E compreender o incompreensível
Sempre me fez ser extremamente incompreendida...

Vivo vidas que não são minhas
E nem sei se estou passando em branco
Pela vida que me cabe...
Sou cheia de humor e alegria
E muitas vezes a depressão e a loucura
Me espreitam numa curva do caminho...

Tudo o que tenho não é meu
E não disponho do que me pertence por direito;
Jamais tive a lealdade que dedico
Ou me vi como prioridade
Dos que me são prioritários...

Vivo de opostos, de extremos...
E, se um dia isso foi incômodo,
Hoje é pra mim um ponto de equilíbrio.
Navego entre dois mundos
E neles aprendo e bebo da fonte de vida...

E se assim a vida me fez conhecer a vida,
Assim aprendi a conhecer a mim,
E a viver as infinitas possibilidades

Porque a vida fez de mim alguém
Extremamente sedenta de conhecimento,
E extremamente bela...

*2007

* TRAVA

Trava,
Tramela.
Revela o medo.
Orgulho
Borbulha do peito,
Deixa de fora
O afeto,
Retoca o que sente
E mente
Que é repente.
Nem sente
A fome, o frio.
Ferrolho
Que fecha o olho
Do amor

*2002

terça-feira, 18 de setembro de 2007

* HOJE, NÃO

Eu tenho paciência infinita com a loucura alheia
E me espelho nas dores e carências
De quantos encontro pela vida...
Mas, por favor,
Hoje não...

Hoje, me bastam minha própria tristeza
Minhas dores, desejos e mágoas....
Hoje, não quero saber das loucuras,
Fragilidades, tristezas de mais ninguém...
Hoje só quero saber de doçura,
De carinho, beijo aconchego....
Só quero saber de quem me queira bem...

Hoje, não, por favor....
Não quero ouvir dissabores,
Mágoas de amores
Ou viagens alucinadas....
Não quero saber de problemas
Não quero saber de tristezas....

Nem mesmo quero saber das vitórias
Alegrias, sucessos, glórias!
Que cada um se realize onde está seu coração,
Que festeje a realização dos sonhos,
Mas, por favor...
Hoje, não....

Não se trata de inveja, amargura ou ciúme...
Só preciso de um tempinho
Pra lamber minhas feridas
E, de novo sorrir pra vida.
Amanhã eu volto...
E vou oferecer meu ombro ou
Vou celebrar os sucessos...
Mas, por favor,
Hoje, não.

Hoje eu quero o meu casulo
Quero colo, quero abraços...
Me digam que sou bonita,
Me cantem músicas lindas
Digam o quanto me admiram
Me brindem com seus sorrisos....
Tragam flores para mim...

Hoje eu só quero beleza
Tranqüilidade,
E a certeza
Do amor que sentem por mim....

*Set. 2007

domingo, 9 de setembro de 2007

* REPETIÇÃO

Infinitas vezes a vida se repete
Até conseguirmos apreender o significado
Das lições que recebemos, desarmados.
Impossível parar seu fluxo
Ou tentar mostrar que é outro o nosso objetivo.
Não adianta tentar usar a lógica,
Ou explicar nossos motivos:
A vida impõe, imperiosa, o seu sentido.
E diante de nossos olhos, estupefatos,
Se desenrola, sem cessar, nosso destino.
Em vão nos dizem sermos dele soberanos
Pois que apenas em parte decidimos.
Cabe a outros reagir da forma “certa”
E só a eles dar o próximo passo.
Como num jogo de xadrez, vivemos:
E tolamente
Pensamos ser reis, rainhas, bispos e torres.
Na verdade não passamos de peões
Ou de cavalos
De um jogador desconhecido, o acaso.
E as peças se movem num tabuleiro
Onde as regras do jogo são por nós desconhecidas
Cada movimento pode levar horas,
Meses, anos, uma vida.
E muitas vezes nos vemos encurralados
Por peão mais esperto ou competente.
É inútil pensar que decidimos,
Que somos espertos, criativos e fortes,
Que podemos decidir o rumo desse jogo
Pois as jogadas são quase sempre intuitivas
E nada nos garante serem as certas.
Até neste momento me utilizo da imagem
Que a outro foi revelada.
E me dou conta que, na verdade,
Não crio nada.

*Abril 2002

domingo, 24 de junho de 2007

* A MÁQUINA DO TEMPO

Os pés descalços sobem uma escada em espiral. À medida que avançam, o tempo gira e gira até parar em frente a uma porta. As imagens são difusas, parecem nuvens ou manchas abstratas de um quadro surrealista. Após um segundo de hesitação, a porta é aberta. E do outro lado...


Uma névoa encobre a paisagem. As nuvens se condensam e mudam de cor. Vão do mais escuro cinza ao lilás claro. Às vezes é possível vislumbrar luzes por trás de uma colina longínqua, como uma cidade que se vê numa estrada sinuosa à noite. Mas a névoa continua encobrindo tudo. Parece que vai permanecer ali o tempo inteiro.

Aos poucos, uma fresta se abre. E vultos, silhuetas, começam a se tornar mais nítidos. E as sensações se tornam mais claras, também. Às vezes as manchas abstratas persistem, mas tudo começa aos pouco a fazer sentido. E um tema parece surgir do nada. A Voz diz um ano, um lugar. E como uma serpentina que se desenrola, vai surgindo o fio da história...

De repente, eis aí a floresta cheia de cachoeiras, o campo com o cavalo branco do cigano, uma adaga que escorrega da pedra e cai no regato... E rostos fugidios que surgem e  somem antes de serem realmente vistos. Mas eu sei. Sei que era ali que o meu povo acampava. Sei que a adaga era dele, como era ele o homem moreno de camisa branca que se movia como uma imagem fora de foco. Uma simples mancha branca encimada por uma cabeça de cabelos escuros, uma faixa vermelha na cabeça... Uma cena em câmera lenta, vista numa tomada zenital, como numa grua. Impossível ver o rosto. Só a mancha branca que se move em meio ao verde do campo. Sei que eu o observava por entre as árvores... Para que?

O tempo gira e agora é um povo de pele escura que caminha num deserto pedregoso. Vive em cavernas, carrega fardos. A vida é dura, o povo é triste, faminto. Não há glamour. Não há tragédias, exceto a de viver. Viver ali é um ato de coragem. Ou um castigo. E de novo a floresta vem mostrar a leveza e a alegria dos ciganos. Por que a adaga caiu no regato? Não sei dizer. Não é a hora.

Pois eis que entre as frestas das rochas surge um muro de pedra. Um casebre ao lado de um castelo. E um camponês de roupas simples em tons de terra. Eu sei que ele sabe mais do que parece. Eu sei que ali tem outra história...

E dessa vez, a névoa me transporta à Irlanda do século XVIII. E mais pressinto do que vejo o dono do casebre. A Voz me conta sua história, e aos poucos as nuvens me permitem vislumbrar algumas cenas. Até mesmo os olhos do homem Sábio que instruía o camponês em seus caminhos... E ouço como foi lidar com o desconhecido, e aprender o que então era considerado proibido. E a tentação de ganhar mais, de ser querido e necessário... E o preço de ver o que outros não viam.. A dor, a tortura, o fogo... E o perdão àqueles que o traíram...

De novo gira o tempo e dessa vez é uma mulher vaidosa que se enfeita, em frente ao que de melhor a Idade Média lhe oferecia. A Voz me conta outra história, e algumas cenas pontuam o que escuto. Mais ouço do que vejo o arrastar de vestidos pesados de veludo, o peso de móveis maciços e paredes de pedra de um castelo. Janelas altas, ar abafado... E as saídas em liteira ou carruagem, fingindo ignorar o rosto amado. O contraste entre a riqueza do marido indiferente e a doçura do homem pobre, abandonado. E voz me conta do desespero que se segue... da ânsia de preencher esse vazio, do coração endurecido, da frieza... Enquanto o homem amado luta... e tira vidas em guerras insensatas, tentando exorcizar os seus demônios... E o arrependimento chega muito tarde, deixando um corpo alquebrado e triste abandonar a vida na solidão e no vazio que escolhera...

Mais uma vez gira o carrosel do tempo... e surge um belo campo de lavanda... E a paisagem é uma velha conhecida... Não preciso ver para saber que é ali que existe uma casa de pedra, com uma roca de fiar no alpendre e um porão úmido. Revejo uma bela vista da floresta e do campo de lavanda. Eu sei. Já senti aqueles cheiros. Eu sei que ali mora um jovem casal. EU sei que houve uma tragédia e ele morreu. E a Voz me confirma essa certeza. Me diz que eles eram jovens e belos e queridos na aldeia onde moravam. E que por um breve período foram felizes. E que se amavam... E explica que foi preciso ser breve o tempo juntos, para que os ressentimentos não fossem mais devastadores que o fogo. E são tantas coisas belas que são ditas... É tanta emoção no reconhecimento dessa Voz... Que aos pulos o coração quer prolongar essa visita!

E a cada vez que os pés descalços descem a já tão conhecida escada são tantos os presentes que trago comigo... São peças de um mosaico que aos poucos vou montando... É tanto conhecimento, tanta sabedoria... Nada é em vão nem desperdiçado. São lembranças que resgato a cada dia, são histórias, são vidas, são lições... E mesmo quando só vislumbro uns pedaços.. eu simplesmente Sei. O fio do novelo é revelado e posso desenrolar o resto... e saber as sensações, os pensamentos, os desejos...

Mas é hora de voltar e retomar a escada em espiral. E aos poucos desfazer os nós do tempo.... até a próxima subida... E é claro que haverá outras subidas,outras viagens... É uma fascinante máquina do tempo. E me leva à mais fascinante e fantástica das viagens: o auto-conhecimento.

06. Fev. 2007