terça-feira, 12 de dezembro de 2006

* TEATRO FECHADO


C’est fini
Caiu o pano e terminou o espetáculo. O público se retirou e o teatro está vazio. Me vejo sozinha em um palco quase às escuras. Sento-me no meio do palco e olho em torno.

Não há mais nada.
O cenário foi desmontado. Há apenas um enorme espaço vazio à minha volta. Nem mesmo o som dos aplausos ecoa mais. Foi a última apresentação do último dia desse teatro.

Acabou. Para sempre, acabou.
Não mais haverá risos no camarim. Não mais os gritos de alegria na conclusão de uma cena. Não mais o eco das vozes dos artistas. Não mais a energia e a emoção das personagens. Não mais o sonho. Acabou o espetáculo. Desceu o pano.

Deveria levantar e pegar minhas coisas pra ir embora. Mas minhas pernas se recusam a obedecer. Me sinto presa. Paralisada. Sinto ainda no corpo o calor do figurino que usei. E no rosto existem vestígios da maquiagem...

Fui tão bonita!... Pelo tempo que durou o espetáculo fui princesa! E fui querida, fui amada, aplaudida!! Em minhas mãos sinto ainda o calor das mãos do meu parceiro. E no meu corpo a marca de seus braços. Diante dos meus olhos brincam os seus sorrisos e o brilho de seus olhos acende o caminho em cena. Ecoam em meus ouvidos as suas falas que me conduziam por entre os objetos do cenário...

Levanto a cabeça e esboço um sorriso...
Quem sabe foi engano. O teatro não será fechado e haverá ainda uma outra sessão?...

Mas... É inútil. Continua tudo vazio e às escuras como antes. Apenas o frio se intensifica. Foi ilusão. Não há mais nada. Olho pela última vez o lugar onde o sonho ganhou vida e fui tão feliz... está vazio. Definitivamente vazio. Acabou, mesmo. O teatro será fechado.

Sinto as lágrimas rolarem no meu rosto e pingarem lentamente em meu peito. Em cada uma há uma história, há um momento que marcou. E cada uma deixa um sulco de tristeza em minha alma que, talvez, se eu tiver sorte, não seja tão perceptível em minha pele...

Respiro fundo.
Olho em volta uma ultima vez e num esforço supremo me levanto.
Saio calada do centro do palco. Apanho no caminho um adereço esquecido num canto. Guardo na bolsa uma folha do texto... Apago a luz.

Fecho a porta, sem olhar para trás.
Lá fora a escuridão da noite e o frio da madrugada me esperam. Mas, como todo artista, guardo em mim a centelha da esperança. E ainda rezo para que nasça o sol de um novo dia.


*Out.2005

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Cinema, Aspirinas e Urubus

Rating:★★★★★
Category:Movies
Genre: Drama
Filme candidato ao Oscar 2007, na categoria Filme Estrangeiro.
Mariavilhoso!!!! Fico orgulhosa de ver um filme pernambucano representando o Brasil. Roteiro e direção de Marcelo Gomes, Produção da Rec Produções, Maquiagem de Marcos Freire. Atores, técnica... tudo da gente!!!
Parabéns pra João Junior da Rec. Parabéns pra Marcos Freire, mais jovem maquiador a ter um filme indicado ao Oscar e meu grande e querido amigo pessoal...`
É um filme imperdível. Pela fotografia, pelo enredo, pela produção como um todo.
E por ser pernambucano, inclusive.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

* IMAGENS DO TEMPO


De quem são esses olhos
Que me fitam curiosos cada vez que me vejo
No espelho?
Eu uma e eu sou tantas, tão diversas...
São imagens que se fundem, superpostas,
E tantas vezes se confundem
E rodopiam misturando os seus traços
Num compasso incessante de mudanças....

Sou cigana, sou egípcia, sou a bruxa
Olhos vivos, de mistérios milenares...
Disfarçados, maquiados, penetrantes...
Sou a dama recatada, sou a mártir
Olhos baixos, tímidos, suplicantes...
Sou guerreira, sou o bárbaro comandante
Olhos vivos, atentos, vigilantes...

Sou assim...
Sou completa, inteira e fragmentada
Um conjunto do que fui, do sou e o que serei
Muitas vidas, muitos corpos, muitos Eus
Se resumem nesses olhos que me fitam
E escondem tristezas, alegrias e amores,
Segredos, mistérios, tantas dores...
Mas que viram e viveram tantas coisas
E fizeram de mim esse enigma
Essa pessoa dividida e amiga
Tão cheia de afeto e de doçura
De cicatrizes tão profundas e tão leves

Sou cortesã,
Sedutora, sensual, dissimulada
Sou a mãe,
Carinhosa, amorosa e dedicada...
Sou guerreira,
Lutadora, persistente, arrebatada....

Simplesmente...

Sou mulher.
Companheira, amiga, apaixonada....


07/12/2006.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

* FASES
















Sou como a lua:
Mutante.
Posso brilhar, plena e cheia
Com o amor que trago no peito
E iluminar as noites escuras de outro ser.
Se me magôo, murcho
E meu brilho decresce
Até não ser mais que uma fina fatia
Que apenas olhos amorosos conseguem ver.
Gestos de afeto me preenchem
E meu brilho volta a crescer
Iluminando cada vez mais
As estrelas que escondo no olhar.
E o desamor me apaga
Mostrando minha face escura e fria.
Vigio a escuridão que me vai na alma.
Sinto o frio que me gela os ossos
E libero vampiros e lobisomens
Que se escondem nos grotões mais profundos
E escuros de mim mesma.

Mas, ainda assim, eu brilho.
Porque a lua é dualidade,
E se uma face se mostra escura no ocidente
No oriente casais param encantados
Com o brilho intenso da plena lua cheia.
E sob a escuridão que tolda o meu olhar
Se esconde um coração apaixonado
Um ser carente, doído e assustado
Que se recolhe para lamber as próprias feridas
E voltar a brilhar, de luz intensa e prateada
Jorrando de seus olhos e seu sorriso
Com braços abertos e aquecidos
Pronta para dar ao ser amado o abrigo.

Sou como a lua.
Mutante, multifacetada, mas constante
Pois que as mudanças são apenas os reflexos
Das emoções que não consigo esconder.
Sou transparente.
Frágil, forte, intensa, passional,
Um ser apaixonado, irracional,
Que tenta a muito custo se conter
E vaza todo o amor que lhe é próprio
E o brilho que lhe vem do sol amado,
Traduzido no afeto de outro ser.

*Fev/ 2003

domingo, 8 de janeiro de 2006

* SEIXOS E CASCALHOS

A dose de mágoa e desacerto que nos cabe é inevitável. Há formas diferentes de encontrá-la, porém. Talvez sob os seixos que vemos já polidos nas praias alheias se escondam cacos de vidro.

Talvez entre os cascalhos que transbordam em nossas praias se escondam diamantes.

Impossível saber o gosto do vinho até prová-lo. Impossível saber se agüentamos o fardo até carregá-lo.

O que dá beleza e sentido a isso é a dose de amor, aprendizagem e harmonia que conseguimos filtrar a cada passo.

*1990

* IDENTIDADE


eu. comigo.
eu. em mim.
eu. sozinha.
eu. somente.
Mas sempre,
Mais que tudo,
Mais que nada,
EU INTEIRA,
Eu plena,
Aberta
E livre.

*1990

* NÃO ME VEJAM COMO HEROÍNA

Não me vejam como heroína
Sou apenas uma mulher transbordante de amor.
Não me vejam como idiota
Sou apenas uma mulher que aprendeu com seus erros
A ter complacência com os erros alheios.
Não me julguem cega de paixão.
A paixão não me turva os olhos
Nem embota o conhecimento.
Conheço defeitos e qualidades do homem que amo
E o amo por isso:
Por ser um homem em busca de si.

Não acredito em contos de fadas,
Em príncipes montados em cavalos brancos com arreios de prata,
Em duendes, fadas e poções mágicas.
Acredito apenas no que a vida me traz:
No calor do sol, no frescor da brisa,
Na beleza do luar, na magia do mar,
Na dança das flores coloridas
E na música dos pássaros...
Acredito na dor
Que traz um aprendizado em cada cicatriz.
Acredito que Deus está em cada coisa,
Em cada gesto de afeto,
Em cada momento da vida...
Que nos é dada pra aprendermos a ser feliz.

Não me vejam como a mística sonhadora.
Não o sou.
Sou apenas uma mulher
Que trilhou caminhos áridos
E feriu os pés nas pedras e espinhos,
E encontrou o oásis de um sorriso,
De um abraço amigo,
De uma palavra de carinho.
Sou apenas uma mulher
Que desceu ao fundo do poço sem fundo
E foi puxada de volta pela força do amor:
Do amor à vida,
Do amor a si mesma,
Do amor das almas-irmãs que me acompanham.

Conheci todas as dores
E tive a força de não fugir das lutas.
Encarei minhas personnas
E descobri as travas que as grudavam ao meu rosto.

Não me vejam como heroína:
Não consegui tirar de vez as armaduras,
As máscaras, as capas
Nem descer da torre de marfim.
Mas desbravei cada caminho,
Vasculhei todos os sótãos,
Percorri os labirintos
E cheguei um pouco mais perto do centro de mim.
Sou apenas humana:
Sinto medo, rancor, orgulho.
Sinto dor, prazer, carinho.
E as cicatrizes,
Que recobrem meu peito como uma malha rendada,
Me ensinaram a dor de sair à procura de si mesmo.
Me ensinaram o respeito
Àquele que se busca acima de tudo,
Que empreende a jornada ao centro de si
Que sofre na caminhada
E ousa percorrer os caminhos mais duros
Buscando as peças do mosaico
Que irá, enfim, transformá-lo num ser inteiro.

Não me vejam como tola,
Não se apiedem de mim,
Não me vejam como uma supermulher
Nem me deifiquem.

Não me invejem nem me julguem.
Sou apenas o que sou:
Um ser fragmentado, ferido, assustado.
Um ser que perdeu momentos importantes da vida
Por falta de capacidade de reconhecê-los.
Um ser que ainda luta para encontrar seus caminhos
Que procura sua alma gêmea,
Ou simplesmente outro ser
Que entenda o que significa a busca de si mesmo,
Que reconheça em seu rosto uma companheira de jornada
E aceite todo o amor que lhe transborda do peito.

Sou apenas uma mulher
Que segue em frente apesar do medo,
Apesar das dores
E que sorri por entre os olhos molhados
Agradecida por mais um dia
De aprendizado, de caminhada,
De vida.

*2002